Celebra-se hoje o Dia Mundial da Saúde Mental, um tema que sempre fez parte da realidade de todos, mas que ganhou mais espaço na esfera pública após a pandemia de COVID-19. A efeméride, que tem como missão chamar a atenção para as doenças do foro mental e os seus principais efeitos na vida das pessoas, tem, este ano, como mote Fazer da saúde mental uma prioridade global.

Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), mais de um quarto da população portuguesa referiu ter sentido efeitos negativos na sua saúde mental devido à pandemia da COVID-19. Estes efeitos, explica a psicóloga clínica do Centro Hospitalar de Leiria, Sónia Leirião, manifestam-se de diferentes maneiras em cada pessoa. Nos jovens, a psicóloga destaca as recusas escolares e as perturbações de ansiedade, que acabam por gerar «comportamentos autolesivos, cortes, automutilações, ataques de pânico, crises de ansiedade em contexto escolar, baixa tolerância à frustração». A ansiedade é efetivamente uma das doenças que está a marcar o século XXI, inclusive nos adultos, frisa a psicóloga. Essa ansiedade revela-se nas «dores que a boca não fala» e que «o corpo fala por nós». «Existem muitas cefaleias de tensão que são motivadas pelo stresse, pelo cansaço, pelas alterações nas rotinas do sono, pelo facto de a pessoa estar a colocar uma pressão diária em cima de si», sublinha. Também Ana Borges, interna de formação em psiquiatria, considera as «perturbações da ansiedade e as perturbações de humor, nomeadamente as depressões», como as mais prevalentes no espetro atual.

Estas patologias do foro psicológico sempre geraram algum estigma na sociedade, sobretudo por serem doenças que não se veem. Apesar de, na opinião das duas profissionais, este estigma já ter sido “quebrado” por alguns, ainda persiste noutros. O Dia Mundial da Saúde Mental celebra-se desde outubro de 1992, mas Sónia Leirião considera que as faixas etárias mais altas ainda hesitam em recorrer à psicologia. Reação oposta tem o escalão mais jovem, já que «os miúdos estão muito mais despertos», fruto do «trabalho que tem sido feito em termos de campanhas, nos centros de saúde e nas escolas». Ana Borges considera ter existido «um grande trabalho para promover a literacia das pessoas nesta área». A psiquiatria, que estuda o aspeto biológico das perturbações mentais, casos da ansiedade, depressão ou esquizofrenia, alerta ainda para outra particularidade: «Por um lado, há perturbações em que o doente sabe que está doente, apercebe-se que alguma coisa está mal com ele e por outro, há outras perturbações em que o doente não tem crítica, não sabe que está doente» e «terá de ser levado a estes profissionais por terceiros», explica.

O combate à doença mental por conta própria

Para Ana Borges, para ter saúde mental, «hábitos de vida saudáveis» são um grande passo. A médica enumerou uma lista de conselhos para encontrar um estilo de vida que beneficie a mente: «Uma alimentação saudável; a prática de exercício físico regular; evitar o consumo de substâncias lícitas (como o álcool) e ilícitas; evitar fumar; ter hábitos de sono e respeitar o número de horas aconselhado; e socializar, ter uma vida com propósito». Já Sónia Leirião considera que ter a capacidade de fazer uma autoavaliação é um fator a ter em conta. «Estamos a falar desta aceitação, da pessoa se aceitar como é e não valorizar tanto a opinião dos outros. Nós vivemos em sociedade e às vezes a sociedade onde estamos inseridos é um bocadinho difícil para nós», salienta a psicóloga. Se o utente tiver a capacidade de ser totalmente transparente com o psicólogo, isso permitirá um diagnóstico mais eficaz. «A ferramenta mais importante que [o psicólogo] tem é a escuta, uma escuta ativa, sem julgamento, com confidencialidade», considera. É essa função que «lhe permite identificar as alterações que o utente tem de fazer», nomeadamente em casos de depressão e ansiedade.