Já parou para pensar na força silenciosa que move o concelho de Porto de Mós, mas que raramente é tema de conversa? Em Portugal, e em muitos concelhos como o de Porto de Mós, existe um motor de transformação que atua nos bastidores da nossa sociedade: a formação de adultos. Este pilar essencial da educação é um agente discreto, mas poderoso, de qualificação, reconversão profissional e inclusão social, cujo potencial ainda se encontra largamente por explorar.
No decorrer da minha vivência como formador, conheci a história da Maria (nome fictício), que é um testemunho vivo desta realidade que acontece mesmo ao nosso lado. Aos 54 anos, depois de três décadas a fazer limpezas, Maria abraçou um curso noturno de Assistente Administrativo. Três meses depois, garantia um contrato efetivo numa empresa local. Este é apenas um exemplo entre os milhares que se desenrolam discretamente por todo o país e por Porto de Mós, demonstrando como a formação de adultos é uma verdadeira alavanca para o desenvolvimento pessoal/profissional e, consequentemente, para as nossas comunidades.
Os dados oficiais do PORDATA (2024) sublinham a urgência e a oportunidade que temos. Cerca de 1,8 milhões de adultos em Portugal, entre os 25 e os 64 anos, ainda não concluíram o ensino secundário. A taxa de participação em ações de formação situa-se nos 32,7%, significativamente abaixo da média europeia, de 47%. Embora os cursos EFA (Educação e Formação de Adultos) e os processos de RVCC (Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências) tenham qualificado cerca de 28 mil pessoas em 2023, o caminho a percorrer é ainda longo, e certamente se reflete nos números do nosso próprio concelho.
Por que razão não conseguimos capitalizar plenamente esta poderosa ferramenta de desenvolvimento humano e económico? As barreiras são multifacetadas e podem estar presentes mesmo aqui, na nossa vizinhança, onde prevalece o estigma social da formação de adultos como um “plano B”, para aqueles que alegadamente “fracassaram” no seu percurso escolar convencional. A formação disponível muitas vezes não se alinha com as reais necessidades do nosso mercado de trabalho local, priorizando conteúdos teóricos em detrimento de competências práticas e aplicáveis, o que gera uma oferta desajustada. Horários incompatíveis com turnos de trabalho, a falta de transportes públicos noturnos, e outras dificuldades de acesso, afastam um número considerável de potenciais formandos, criando barreiras logísticas. Finalmente, a pouca ligação entre as instituições de formação e o tecido empresarial local resulta numa menor valorização dos certificados obtidos, criando um ciclo de desincentivo. A formação de adultos não deve ser encarada como um custo, mas sim como um investimento de elevado retorno social para toda a comunidade. Enquanto o debate público se centra frequentemente no ensino superior, não podemos ignorar os milhões de portugueses que necessitam não de um diploma universitário, mas de competências concretas para prosperar num mercado de trabalho em constante evolução. Aos 54 anos, Maria provou que nunca é tarde para recomeçar. Quantas outras histórias de sucesso poderíamos estar a construir se déssemos à educação “invisível” de adultos o reconhecimento e o apoio que merece? É tempo de olharmos para esta área crucial como um motor de desenvolvimento local. Podemos e devemos fazer mais para que cada um dos Portugueses tenha a oportunidade de se qualificar e de prosperar.

