Forno a Gasogénio – Cerâmica Alcôa-Moitalina

23 Agosto 2026

Por volta do ano de 1963, José Rosa construiu, na sua fábrica em Moitalina, um forno contínuo alimentado a gasogénio. O equipamento tinha cerca de 20 metros de comprimento, 1 metro de largura e 2 metros de altura no princípio e no fim. Era mais alto, e mais largo, na sua zona central, onde se fazia a combustão do gás e a cozedura dos materiais. Por dentro tinha as mesmas medidas do princípio ao fim e a sua configuração era como que o negativo das vagonetas. Foi todo construído no local, sob orientação dum técnico oriundo da zona de Coimbra. O material aplicado na construção era essencialmente tijolo burro, na zona de aquecimento e arrefecimento, e de material refratário na zona da cozedura.

As vagonetas eram parecidas, embora mais pequenas, com as que atualmente equipam as muflas utilizadas nas indústrias de cerâmica. No interior do forno encostavam-se em fila, e deslizavam lentamente, sobre uma linha de ferro, empurrando-se umas às outras, com movimento impercetível e com a ajuda de um empurrador elétrico fixado do lado de fora à entrada do forno. Este empurrador era um macaco hidráulico, de diferentes velocidades ajustadas de acordo com a natureza, e a quantidade, dos materiais a cozer e da qualidade da lenha. O seu braço funcionava na horizontal. Era operado pelo forneiro de serviço que o desligava sempre que metia uma vagoneta e o ligava após esta operação. Dos lados de fora, no topo e no fim, havia um transportador que o forneiro deslocava manualmente, também numa linha de ferro adequada à função. O transportador da entrada carregava o forno com a vagonetas cheia de material para cozer, e o da saída descarregava a vagoneta com o material já cozido.

A caldeira situava-se num buraco no chão, ao lado da zona de cozedura, com entrada da lenha por uma boca na vertical, e tampa metálica que só era aberta para a entrada da lenha. Nessa altura o forneiro servia-se de uma mecha que atirava acesa para dentro da caldeira e incendiava o gás de modo a que este não se espalhasse pelas instalações. O gás era visível e perdia-se parecendo vapor sempre que se abria a boca e, por causa disso, a tampa só permanecia aberta o tempo estritamente necessário para a introdução da lenha. O gás voltava a apagar-se por falta de oxigénio sempre que se fechava a tampa da caldeira. Era canalizado para a zona de combustão por instalação subterrânea, fixa e própria. A sua regularização era feita por uma placa de barro refratário que o forneiro fazia deslizar com a ajuda de um gancho de ferro. Para o efeito, ajoelhava-se no chão e controlava a abertura, ou o fecho, consoante a sua experiência e o pirómetro aconselhavam. A placa em causa, tinha as dimensões e o formato das bases de plástico que utilizamos nas nossas cozinhas para o corte do pão, da carne ou do peixe. A lenha era variada. Por vezes cepos inteiros cujas raízes eram cortadas pelo forneiro, em cima de uma bancada com serra elétrica.

Lembro, com saudade, os meus companheiros nesta atividade. Desde logo o meu pai, mas também o Augusto Silva de Tremoceira, o João Saraiva de Cruz da Légua, o Luís também de Tremoceira e que imigrou para França e o Joaquim Júlio (Tourões?) que imigrou para a América Latina (Paraguai?) e que nunca mais vi.