Kristin, apenas mais uma tempestade?

11 Março 2026

Kristin não foi apenas mais uma tempestade de inverno: foi o espelho de um país que há décadas escolhe ignorar o território em que vive. A violência do vento não explica sozinha casas destruídas, linhas de energia no chão, estradas cortadas, milhares sem luz nem comunicações e mortos. O que torna Kristin devastadora é o encontro entre um clima em mudança acelerada e um urbanismo feito muitas vezes à revelia do bom senso.

Durante dias vimos rios a sair do leito, bairros inundados e encostas a ceder. Não foi surpresa: construímos em leitos de cheia, impermeabilizámos solos com betão e alcatrão, estrangulámos linhas de água em túneis, deixámos crescer árvores descontroladas junto a casas e estradas, como se a natureza fosse um cenário decorativo e não uma realidade dinâmica. Quando o solo já não absorve, a água procura o caminho que sempre foi seu; quando as raízes cedem num vento extremo, as árvores tombam sobre telhados, carros e linhas elétricas. Não é o ambiente que não nos respeita: somos nós que o provocamos.

A resposta oficial passa por declarações de calamidade, apoios e promessas de reconstrução. Necessário, mas é mais um remendo num tecido urbano que insistimos em rasgar. Reparamos telhados, refazemos estradas, indemnizamos empresas, mas hesitamos em enfrentar o que dói mais: dizer “aqui não se volta a construir”, “este estacionamento volta a ser zona de inundação”, “esta linha de árvores junto às casas tem de ser gerida, mesmo que seja impopular”. Kristin devia ser um gatilho para priorizar limpeza de florestas, gestão da vegetação e renaturalização dos cursos de água, não apenas para mais promessas.

Também as populações foram apanhadas desprevenidas. Há avisos de risco, mas a maioria de nós não vive com um plano de emergência na gaveta. Quantas famílias tinham água e mantimentos para alguns dias, lanternas, rádios a pilhas, etc.? Quantas pensaram no que fariam se ficassem ao mesmo tempo sem eletricidade, rede móvel e estradas transitáveis? A fragilidade não é só das infraestruturas: é da nossa cultura de conforto automático, que assume que tudo estará sempre a funcionar.

No rescaldo contam‑se casas destruídas, indústrias paradas, postos de trabalho em risco, estradas cortadas, desalojados. Esses danos são visíveis e seguráveis (alguns). Mais silenciosos são os danos psicológicos: o medo de voltar a dormir quando o vento aumenta, a ansiedade de quem viu a água entrar pela casa, o stress de quem passou dias sem saber se reabria portas ou como pagava salários. Uma tempestade que arranca telhados arranca também a sensação de segurança.

Temos duas escolhas. Continuar a tratar eventos como Kristin como desastres naturais, inevitáveis, respondendo apenas com conferências de imprensa e reconstrução nos mesmos sítios. Ou assumir, de uma vez por todas, que a natureza responde ao desrespeito acumulado com cheias mais repentinas, ventos mais extremos, mares mais agressivos, e que isso exige uma revolução tranquila: urbanismo que devolve espaço aos rios, solos menos impermeáveis, florestas geridas com rigor, casas preparadas, cidadãos informados e treinados. Kristin não é um castigo: é um aviso. Ignorá‑lo seria o verdadeiro desastre.