Lume brando

31 Dezembro 2025

É Inverno. Nada mais oportuno para mencionar o tema dos incêndios. Uma vez que nada é feito para prevenir os da próxima época de calor – talvez porque o Governo esteja demasiado ocupado a privatizar muito do que nos é essencial à vida – falemos da época anterior. Uma das cenas que mais me impressionou foi assistir à plantação desesperada de espécies vegetais e colocação de comida, nas áreas ardidas, para que os animais selvagens sobrevivessem. A mais ligeira das observações ficaria comovida com tanto amor à Natureza. Contudo, ao olhar a fundo, percebemos que tanto cuidado tinha por finalidade a manutenção da caça. Ajudar a viver, para poder matar.

É neste tipo de paradoxo que a humanidade vai ardendo em combustão lenta. Não nos enganemos. Se extrapolarmos este exemplo a outras dinâmicas da vida, poderemos intuir que os bancos nos emprestam dinheiro para nos poderem roubar mais; que o Estado nos dá umas migalhas de quando em vez, para que nunca nos lembremos do bolo inteiro; que as forças de segurança precisam de criminosos para que tenham um porquê de existir.

As deturpações com que poderíamos alimentar a fogueira não têm fim. Basta ver a facilidade com que o cancro democrático chamado Chega alimenta o ódio numa maioria crescente. A paisagem vai ficando devastada. Ter ideias positivas sobre a construção de uma sociedade melhor, é ainda mais difícil que o crescimento de raízes que impeçam a erosão.

Nesta serra que habito, caçadores vão alimentando javalis até que a suprema carnificina tenha lugar. Entretanto, estes animais vão, a título de exemplo, destruindo lentamente o património agrícola, caracterizado pelos muros de pedra, que ainda há pouco tempo queriam classificar como património protegido. Ideias de cinza onde nenhuma Fénix renasce ou melhor, onde um aborto de Fénix chamado Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, vai pairando no território como um fantasma incendiário.

Mas foquemo-nos nos exemplos de resistência. Tenho conhecido gente que cuida dos animais sem porquê; dos selvagens e dos domésticos que andam tresmalhados da humanidade. Gente que planta árvores sem chamar os jornais, sem querer posar para a foto que torna os egos em brasa. Aliás, gente que o faz à revelia das autoridades que gerem território, em acções que intitulo de “terrorismo simpático”. Nesta sociedade dominada pelos hipócritas em chama, parece-me que o futuro a sério pertence a estes incendiários não oficiais.

Termino este pensamento com um exemplo poético, da nossa querida Adília Lopes, que ilustra a nossa capacidade de pensar o bem, subvertendo um ditado popular. “Dois pássaros a voar. Mais vale!”