Manifesto para que Deixem de me Cheirar o Rabo

23 Março 2026

Passei anos a tentar agradar a todos. As dúvidas que me colocavam enchiam-me a cabeça e se não fizesse da forma como achassem melhor, lá vinha o “castigo”. Falhar. Esta é a palavra de que mais tenho medo. Que descubram que não passo de um enorme conjunto de defeitos e que afinal percebam o que sou na realidade: igual a todos vós.

É isso mesmo que leram amigos, nós somos todos iguais. A nossa identidade é mais moldada pelos inúmeros falhanços e erros que cometemos do que propriamente pelas conquistas que acumulamos. Porém, curiosamente, são apenas as coisas boas que decidimos partilhar. É que todos conhecemos o Sérgio que gosta de publicar os seus músculos quando está no ginásio, mas que quando come espinafres no sofá já não quer fotografias. E então eu pergunto: porquê? Porque não mostrar no que erramos? Que somos feios quando acordamos? Porque nos envergonha tanto este lado menos fotogénico? É isso que nos torna mais humanos, não é?

Mas se não formos perfeitos, parece que temos sempre a polícia dos impostores à nossa porta. A rondar-nos, para garantir que estamos a fazer tudo bem. Como se fazer as coisas da maneira que queremos não fosse bem visto. Como se as nossas ideias não fossem boas o suficiente para se concretizarem. Em suma, toda a nossa vida se resume a manhãs mal passadas, noites mal dormidas e tardes mais ou menos. E o nosso dito “castigo” na verdade não é falhar, mas sim não vivermos verdadeiros a nós mesmos. Por isso, sejam mal educados, preguiçosos e egoístas de vez em quando.

Tomemos Coragem! Não nos preocupemos tanto com a opinião da prima que vemos uma vez por ano e que decidiu começar uma carreira a vender bifanas depois de ouvir a Cristina Ferreira a falar inglês. Ou daquela amiga que tirou enfermagem e, de repente, a vemos no Secret Story, porque o seu segredo era “os meus pais são irmãos e eu não sei de quem sou sobrinha”. Lembrem-se: se elas conseguem seguir os seus sonhos, nós também conseguimos.

Acredito que se estão a perguntar o porquê da escolha deste título. É simples: estou cansada de agir da forma que os outros querem. Quero fazer o que me vai na alma. Se eu quiser escrever sobre sanitas, vou escrever sobre a forma como o meu dorso se aconchega quando me sento no azulejo. Se acordar e quiser passar o dia no sofá, com a cara borrada de chocolate, enquanto vejo a nova temporada de Lua Vermelha no meu pijama às bolinhas amarelas, então é exatamente isso que vou fazer. E ninguém tem nada a ver com isso.

Por isso mesmo, Tânia, não eu não tenho tempo para te preparar um artigo sobre as comunidades de castores dos Países Baixos. Não sei nada sobre diques. 

E não, não te peço desculpa.