A tempestade Kristin, que também passou por Porto de Mós como quem vira uma página com demasiada força, tombou e arrancou árvores, colocou cabos no chão, feriu telhados e transformou ruas que, de repente, deixaram de parecer seguras. Mas o vento não levou apenas ramos, telhas e chapas metálicas ou pessoas. Levou-nos, por dias, a ilusão de que a normalidade é garantida.
Há algo de profundamente pedagógico em jantar à luz de velas sem romantismo algum. Em carregar o telemóvel no carro porque em casa não há energia. Em procurar sinal de rede como quem procura água no deserto. Em ver idosos privados da televisão que lhes faz companhia e famílias a deitar fora alimentos que lhes custaram a comprar. Tudo isto a poucos minutos do que gostamos de chamar “centro de Portugal”.
Descobrimos, assim, que a distância entre a civilização e o modo de sobrevivência pode medir-se em horas sem eletricidade.
Entretanto, no terreno, multiplicaram-se intervenções. Homens e mulheres que acumularam noites mal dormidas, que responderam a chamadas sucessivas, que desobstruíram estradas e removeram perigos invisíveis para que a vida de todos regressasse ao seu curso. Fizeram-no com os meios disponíveis – expressão elegante para designar aquilo que existe, não necessariamente aquilo que seria necessário.
É extraordinária a capacidade nacional para exigir resultados extraordinários com recursos ordinários. Espera-se presença imediata, cobertura total, resposta permanente. Como se os operacionais fossem uma variável infinita numa equação administrativa bem resolvida no papel.
Talvez devamos agradecer à tempestade por nos oferecer esta claridade temporária. Não a da energia elétrica, mas a da consciência. A proteção civil não é um conceito abstrato nem um ponto numa ordem de trabalhos ou uma conversa de circunstância em qualquer quadrado de terreno. É um sistema humano, sustentado por pessoas reais, sujeitas a limites reais. Planeamento faz-se em dias de céu azul, não sob rajadas de 180 quilómetros por hora. Investimento decide-se antes da próxima depressão atmosférica ganhar nome próprio.
A tempestade Kristin foi intensa, mas passageira. Já as fragilidades que expôs permanecem. E permanecerão até que alguém, num gabinete confortável e iluminado ou no conforto do seu lar, compreenda que o tecido humano e patrimonial de uma comunidade não se protege com discursos resilientes, mas com decisões consistentes.
Porque, quando o vento (e não só) voltar, que voltará, não serão os papéis que sairão à rua. Serão, uma vez mais, os mesmos de sempre.


