Memórias…

3 Junho 2026

Sendo a memória uma função cognitiva importante, seria difícil ao ser humano viver amarrado só ao presente. Nem a vida fazia sentido.

Como a memória permite ao ser humano, entre outras coisas, utilizar informações adquiridas e “armazenadas” ao longo dos tempos, vivências antigas surgem a todos os instantes.

Nesse contexto, veio-me à memória os meus tempos de juventude, fase em que as incertezas que sobre nós pairavam eram muitas e preocupantes. Uns estudavam, outros já trabalhavam. Uns com família constituída, outros em fase de preparação da mesma. Transversal a todos, era o estigma da Guerra Colonial e da eminência de sermos mobilizados.

Situação que interrompia por completo o percurso estudantil ou laboral. Interrompia o bem-estar social, a vivência familiar. Interrompia a ligação a um mundo para o qual tínhamos sido “formatados”. Víamos embarcar os nossos amigos, por troca de outros que chegavam cheios de histórias para contar. Alguns infelizmente regressavam sem fazer parte dos vivos e muitos outros portadores de traumas físicos e psicológicos difíceis de superar.

A ideia que nos “vendiam” vão defender a pátria, não nos ajudava em nada a superar climas emocionais. O tal percurso de vida construído ao longo de cerca de 20 anos, para muitos, era um ideal cerceado.

Cenários de guerra, em que sobretudo Angola, Guiné e Moçambique eram os principais destinos. Outros destinos possíveis e considerados favoráveis, eram uma miragem. Aqui se incluíam, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe ou Timor Leste. Nesta fase, as Índias já não faziam parte desse Património Colonial.

Numa fase de introspecção e, no intervalo de umas comemorações cinquentenárias, uma linha condutora traz-me à memória situações vividas. Lembrei-me da difícil despedida do meu amigo e colega de quarto no RI7 (actual RAL4) de Leiria, Rui da Palma Carlos que acabava de ser mobilizado para Timor Leste. Num futuro próximo de pelo menos dois anos, estava alterado por completo o tal ideal de vida, casado, com filho e com a profissão de Arquitecto estabilizada.

O facto de Timor Leste ser um dos destinos militares preferidos, aliviava um pouco o momento vivido.

Timor Leste, onde ia cumprir o serviço militar como Alferes Miliciano, tornou-se num dos maiores pesadelos da sua vida. Foi apanhado nas vicissitudes da Independência, tendo sido feito prisioneiro pelas tropas da Indonésia. Dois anos incontactável, com a incerteza em saber se estava vivo ou morto. Graças às interferências seu tio Adelino da Palma Carlos, Ex Primeiro-Ministro de Portugal, foi localizado na Indonésia e repatriado para Portugal. No cativeiro escreveu um livro com edição esgotada, intitulado “Eu fui ao fim de Portugal”. Ali relata situações vividas. Esteve perante cenário de fuzilamento já com vala aberta, situação revertida por influência de um Sacerdote.

Regressado a Portugal, viveu sempre emocionalmente traumatizado, tendo falecido prematuramente em 2008.