Mentalidade à Ronaldo para 2026

13 Janeiro 2026

Chego ao fim de mais um ano com aquela sensação mista de quem viu o tempo passar depressa demais e que se pergunta se aproveitou os dias como devia, porque a vida tem este hábito de nos manter a todos ocupados com tudo o que é urgente e de nos fazer esquecer o que é verdadeiramente importante.

Ainda há dias ouvíamos o Primeiro-Ministro no seu discurso de Natal a pedir-nos que tivéssemos a ousadia da esperança e que não nos deixássemos vencer pelo fatalismo, uma mensagem que rima na perfeição com aquela “mentalidade à Ronaldo” de que tanto gostamos de falar, feita daquela teimosia bonita de quem não aceita o impossível e daquela capacidade de ir buscar forças onde elas já parecem não existir só para não dar um jogo por perdido. É claro que precisamos desta garra para enfrentar 2026 e que temos de ensinar aos nossos filhos e a nós mesmos essa vontade de querer mais e de não nos contentarmos com o poucochinho, mas sinto que a essa receita de sucesso nos falta juntar um ingrediente essencial que é a saúde de quem corre a maratona.

O desafio que levamos para este novo ano não é escolhermos entre a ambição de vencer ou o bem-estar, mas sim percebermos que ninguém vence nada sozinho, nem com as baterias gastas. Olho à minha volta, não apenas na escola, mas na sociedade inteira, e vejo muita gente a tentar ser o Cristiano Ronaldo da sua vida profissional ou familiar, sempre em esforço e sempre em superação, mas a esquecer-se que até os melhores do mundo precisam de pausa e de colo para se regenerarem.

A verdadeira mentalidade de campeão não é apenas a de quem corre mais depressa mas também a de quem tem a inteligência emocional de perceber quando é preciso parar, respirar e pedir ajuda sem sentir que isso é uma derrota.

As famílias andam cansadas e os nossos jovens sentem essa pressão no ar de terem de ser incríveis em tudo, mas a boa notícia é que as melhores receitas para acalmar a alma continuam a ser as mais acessíveis e as que dependem apenas da nossa vontade de descomplicar. Precisamos de ter a ambição que o país nos pede mas precisamos de a alicerçar em jantares sem televisão e em conversas demoradas no sofá, porque a saúde mental constrói-se nesses intervalos.

Para este 2026 o que desejo é que tenhamos a sabedoria de misturar a vontade de vencer com a vontade de viver, compensando o tempo que os ecrãs e a pressa nos roubaram e devolvendo aos nossos filhos e a nós mesmos o direito ao tédio e à brincadeira. Não precisamos de ser super-heróis nem de ter famílias perfeitas para sermos o porto de abrigo de quem amamos, basta que tenhamos a disponibilidade de escutar com paciência e de oferecer aquele tempo de qualidade que vale ouro.

Que o novo ano nos traga a força para não desistirmos dos nossos sonhos como nos pede o exemplo dos melhores, mas que nos traga sobretudo a serenidade de percebermos que o maior troféu que podemos levantar continua a ser a saúde mental e a felicidade de quem partilha connosco o dia a dia.