Non Habemos Papa, Habemos escuridão!

26 Maio 2025

Sim, sim. Já sei que temos um novo Leão no Vaticano, que os peregrinos já se foram embora de Fátima, e que quem anda à chuva molha-se. Mas digam-me lá se o assunto do apagão não é motivo suficiente para voltar a escrever? Se eu achava que sobreviver sem Internet hoje em dia era tortura, digo-vos já aqui que mudei de opinião. Tirarem-me a luz é que não.

O dia, por si só, começou mesmo bem. Primeiro, falha a luz enquanto ainda me preparo para sentar na sanita. Estranhei, mas não liguei. «Deixa estar que ela volta daqui a nada», diz o meu namorado enquanto faz scroll no telemóvel, com quinze por cento de bateria. O tempo passa. Tomo banho, limpo o corpito e, a certa altura, começo a receber mensagens: «A luz falhou em Portugal!», «Olha, afinal foi na Europa!», «Vamos ficar três dias sem luz!».

Epá, tou lixada. O meu portátil só aguenta 15 minutos ligado e preciso de trabalhar. Entro na net, e vou ver o noticiário em direto. Se é para acabar com a bateria, que seja a ouvir o José Rodrigues dos Santos dizer «Boa tarde. Está tudo apagado!». Semáforos desligados, voos cancelados, troti… olha, emissão interrompida. Perdemos a televisão. E agora? Como é que sei o que se passa no mundo? Mãe? Onde estás? Não tenho rede. Amigos? “Cadê” amizade? Não tenho internet. O que vou fazer? Já sei! Vou ler. Nada melhor do que me educar, neste dia, com sessenta páginas sobre a minha existência como consciência. Tou cansada de ler. Vou fazer as minhas tarefas domésticas devagar, para ocupar o máximo tempo possível. Fiz a cama… já não tenho mais tarefas. Vou fazer sopa. Descasco os legumes, meto na água a ferver, deixo-os cozer e depois… aaaah! Como é que vou triturar tudo? A varinha mágica funciona a eletricidade! Meto numa caixa, e vai para o congelador – que também não funciona –, a ver se arrefece um bocadinho.

O Sol já foi. Entretanto anoitece. Preciso de luz, senão tropeço no estendal. Vou buscar pilhas… todas as que encontrar. Luzes, quero luzes! Luzes de Natal, lanternas, até a minha testa vai ter uma luz. Deus me valha. A nossa fonte de iluminação religiosa foi-se, mas não vou sair daqui sem ter a casa a parecer o presépio, e eu a estrela cadente! Assim sim, já consigo ver a cor dos meus dentes. O meu amor voltou e vamos ter um jantar romântico, sem interrupções. Que bom, um momento só para nós. De repente, ouvem-se gritos de alegria. Um flash de luz acontece. As máquinas ligam. Só pode significar uma coisa: a luz voltou. Aleluia! Já tenho rede e internet! Ai mãezinha, deves ter passado tão mal sem saber de mim. Não te preocupes que eu volt… quê?! Nada? Nem uma mensagem tua? Então, mas, era preciso fazer-te sinal de luzes?