O adjetivo “Fidalgo”, ainda em uso na nossa língua e dominância nas dinâmicas da nossa sociedade, foi importado de Espanha, usado no nosso país desde o século XV, mas que nasce da aglomeração das palavras “filho-de-algo”. Trata-se de uma ferramenta útil à separação social entre quem é filho de alguém e desse alguém herda ou herdou bens e os filhos de ninguém, que nada têm e que, segundo o nosso Ministro da Educação, são quem degrada os serviços públicos.
Desde épocas antigas, quando se inventou a ideia de Estado, a definição de quem possuia bens importava, pois eram esses que tinham algo a defender e, portanto, eram eles que deveriam integrar os exércitos e defender os territórios a que pertenciam. No nosso país, como é fácil de verificar ainda hoje, a evolução dos “Fidalgos” permitiu que fossem os protegidos de levar tiros (no que diz respeito a guerras) estendendo-se esses privilégios a todo o tipo de mordomias que o Estado lhes pode proporcionar para engrossarem os bens que possuem. Já os filhos de ninguém são lenha para queimar todos os dias.
Vejamos então alguns exemplos mais recentes, que demonstram a pobreza desta sina que nos impõem, deste fado que nos ensinam a cantar com as mãos nos bolsos rotos. O filho de um sr. ex-Presidente da República meteu uma cunha caridosa, no valor de 4 milhões de euros, para duas crianças filhas de alguém. Os filhos de um ainda Primeiro Ministro, tornaram-se CEO’s de empresas cheias de trabalho e facturação, sem terem qualquer experiência de trabalho. Os familiares de um pobre ex-Primeiro Ministro garantem-lhe uma vida de luxo com riquezas criadas sabe-se lá onde.
Estes pais, tios, primos e afilhados ou compadres em nenhum grau, são um cancro moral da nossa sociedade, com graves reflexos nas nossas vidas do ponto de vista social e económico. Os Fidalgos atuais são os mesmos que financiam os partidos de extrema direita que prometem acabar com a fidalguia. Os Fidalgos quase anónimos deste país (não fossem os apelidos se repetirem há 900 anos), são os mesmos que detêm acções das empresas gestoras de auto-estradas ou de hospitais privados onde se injetam os nossos impostos.
A manutenção e evolução desta classificação acontece porque cada um, numa extensa maioria, deseja ser ele próprio Fidalgo. Até mesmo os detentores de património, de pequenas e médias empresas, de uma casa cheia de objectos e roupas, se consideram já Fidalgos, não percebendo que são os impostos deste engano que pagam a vida principesca de uma minoria.
Como seria o futuro em que acabassem as fidalguias hereditárias e cada um devesse construir o seu nome do nada?


