O Presidente da República termina o mandato. Na minha infância, adolescência e juventude, dizia-se Sua Excelência. Agora alguns chamam-lhe o “Dos afetos”, o Marcelo e até o P.R. Modernices. Outros atribuem-lhe participação num Golpe de Estado que derrubou um Governo maioritário e escancarou as portas à estrema direita que já lhe chamou cobarde e até traidor. Em política não há gratidão. É a vida.
Na sua última mensagem de Fim-de-Ano falou do Gonçalo de Eça de Queirós em “Ilustre Casa de Ramires”. A última página deste romance resume as características do povo português, encarnadas no Gonçalo. Que serão: dualidade de critérios, afável, herói, cavalheiro, cobarde, hesitante, acomodadiço, inseguro, saudosista e digno, entre outras. Aventureiro na partida para os brasis, áfricas, europas e arredores. Ansioso para regressar, critica quem governa, governa criticando, e não se responsabiliza pelo atoleiro que, a seus olhos, outros construíram. Essas características não serão diferentes das de outos povos, nas mesmas circunstâncias. Já dizia o outro…” eu sou eu e a minha circunstância e se não a salvo ela não me salva a mim”. O homem será um produto do meio em que vive, mas deverá ser ativo para transformar essa realidade de modo a deixar, para quem vem a seguir, uma situação melhor que aquela que ele herdou.
Luís de Sttau Monteiro em “Crónica Atribulada do Esperançoso Fagundes” voltou ao tema, centrado no cético Fagundes, com um pendor mais tipo “Zé Povinho” do que o aristocrata Gonçalo de Eça. Sancho Pança de Cervantes não representaria melhor. O personagem ajuda no assassinato do Conde Andeiro seguindo o Mestre de Avis. Diria eu que demanda mares, persegue judeus, condescende com franceses, expulsa-os com audácia e determinação. Diz o autor que ridiculariza Dona Carlota Joaquina como já tinha feito com Dona Leonor Teles, colabora com outros vintistas revolucionários para ensinar D. João VI a pronunciar Constituição ao qual esta palavra queima os lábios, como acontece a alguns protagonistas da atual praça política. D. João VI confunde-a a toda a hora com Proclamação, Comunicação. Menstruação, e até Masturbação, mas assina-a, sem a ler, sob o olhar de reprovação da sua mãe.
Avançando no tempo, Fagundes está confiante aquando da implantação da República, mas aconselha a turbamulta à moderação, tendo em conta as suas experiências anteriores. O cavaleiro (sonho) que Fagundes segue, e persegue, monta o seu cavalo sentado ao contrário. O cavalo segue em frente e ele é transportado para o futuro a olhar para trás.
Luís de Sttau Monteiro escreveu esta peça de teatro em 1981. O PREC já tinha passado e ele esqueceu-se (ter-se-á esquecido?) dele. Na minha modesta opinião não esqueceu. Estava só a constatar.


