“SE O DESPERDÍCIO ALIMENTAR FOSSE UM PAÍS, ELE SERIA O TERCEIRO MAIOR PAÍS DO MUNDO”

A atual sociedade é consumista, vivendo sempre à procura “de mais e melhor” a todos os níveis. Esta não é uma afirmação que fazemos de ânimo leve, fazemo-la com base em estudos, dados estatísticos e sobretudo através do conhecimento dos impactos que esse excessivo consumo está a ter, entre outros parâmetros, no ambiente. Se somos consumistas em vários aspetos das nossas vidas, também o somos na alimentação. Estamos a desperdiçar tanta comida que, como diz a afirmação acima, se a comida que desperdiçamos fosse um país, seria o terceiro (sim, está a ler bem!) maior país do mundo. Foi a responsável por uma campanha, precisamente sobre esta temática, lançada pela DECO Algarve, Sandra Rodrigues, quem nos lançou esta “bomba”. Se é verdade que o desperdício alimentar é uma realidade preocupante, também é verdade que já existem instituições com soluções para a atenuar. É através destes exemplos que, nesta primeira parte desta reportagem (a segunda parte sairá na próxima edição), falamos sobre o desperdício alimentar como um todo, dando exemplos nacionais, percebendo o problema e o (ainda pouco) que está a ser feito para o evitar. Na segunda parte, concentrar-nos-emos em perceber a realidade da região, nomeadamente com exemplos práticos de quem já tem o combate a este problema como meta.

A Campanha da DECO que quer abrir as mentes

#Alimentar sem Desperdiçar é o nome da campanha promovida pela DECO Algarve entre março e julho deste ano. O objetivo, segundo Sandra Rodrigues, também socióloga e com a responsabilidade de gerir «os projetos e inovação» da delegação da entidade no Algarve, foi claro: «Alertar e capacitar o consumidor para a tomada de decisões mais responsáveis e conscientes nas suas escolhas alimentares». «Este projeto surgiu através de uma candidatura que fizemos ao projeto INTERREG V Espanha Portugal que trabalha na direção dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e que abriu a possibilidade de várias entidades do Algarve e Alentejo para concorrerem com projetos» dentro destes mesmo objetivos. «Dada a nossa experiência no terreno em projetos que temos vindo a desenvolver, com escolas e com a comunidade local, tentámos apresentar uma candidatura que contemplasse a nossa experiência no terreno e fomos selecionados para receber financiamento».

O projeto culminou num vídeo divulgado pela DECO no dia Dia Mundial da Segurança Alimentar onde muitos dados sobre esta problemática são revelados. «Existem dados que apontam que a maior fatia do desperdício alimentar acontece na casa dos consumidores e a tónica é feita muitas vezes por aí», começa por referir Sandra Rodrigues. No entanto, este desperdício é mais profundo e acontece em toda uma linha da cadeia alimentar: «Na produção, processamento, transporte, distribuição e depois na casa dos consumidores». Nos super e hipermercados há subterfúgios para colocar o ónus do lado do cliente. «Se pensarmos, nestes espaços, atualmente são vendidos os produtos em que prazo de validade se aproxima com etiquetas com desconto no valor, para potenciar o seu escoamento e assim, o desperdício passa a estar vinculado ao consumidor final». Mas antes de chegarem às bancas, e esta é uma das mensagens que a DECO quer passar, já nas fases anteriores muito pode ser feito «para colmatar o desperdício». «O que nós precisamos é de informar e formar os nossos consumidores de forma a que tomem decisões informadas e conscientes e percebam que o desperdício alimentar tem impactos económicos, sociais e ambientais», frisa Sandra Rodrigues.

“Foi gasto o equivalente a 100 piscinas olímpicas para produzir alimentos”

Água (numa altura de seca extrema), energia, solo agrícola, força de trabalho, matérias-primas e dinheiro – todos estes recursos são necessários para produzir alimentos desperdiçados e «enquanto isto, 1/6 da população mundial está a passar fome». Esta é outra das “bombas” reveladas no vídeo da campanha da DECO e que nos deixa a refletir. A cada ano, em que continuam a existir milhões de pessoas que não têm como se alimentar, «1,3 milhões de toneladas de alimentos comestíveis» são desperdiçados.

O futuro é preocupante: «Em 2050, a população mundial poderá atingir 10 mil milhões de pessoas e será necessário produzir mais 60% de alimentos. Para os produtores e consumidores, isto vai significar mais escassez de produtos naturais e o aumento dos preços dos alimentos, com consequências para os produtores e consumidores mais vulneráveis», revela o vídeo. Os estudos indicam ainda que Portugal começa a «não ter capacidade de renovação suficientemente rápida para conseguir gerar a quantidade de alimentos que a população precisa», face ao aumento desta mesma população. «Se os alimentos que produzimos atualmente fossem devidamente canalizados, ninguém passava fome no mundo porque o que é facto é que existem milhões de toneladas de alimentos a ir para o lixo», reforça a responsável da DECO.

DECO pode ser “lobby” junto do Governo

Em junho, Espanha aprovou uma lei contra o desperdício alimentar. Os restaurantes estão, entre outras coisas, obrigados a avisar os clientes de que podem levar as sobras. Além dos restaurantes, bares e supermercados terão que doar os alimentos em bom estado a bancos alimentares e instituições de solidariedade social e quando o que sobra já não estiver bom para consumo humano, deve ser transformado em compotas ou sumos, ou usado para alimentar animais, produção industrial ou compostagem. Quem não cumprir poderá ter uma multa de até 60 mil euros. Esta lei poderá ser replicada em Portugal? A resposta de Sandra Rodrigues é afirmativa: «A DECO tem informação de que está prevista a implementação de um inquérito nacional sobre o desperdício alimentar, precisamente com a finalidade de conhecer a realidade portuguesa com maior detalhe e para que possam ser tomadas medidas que atuem em cada uma das fases de produção e da cadeia alimentar», revela.

Um dos trabalhos da DECO, refere Sandra Rodrigues, é precisamente «manter-se atenta ao que outras entidades fazem para poderem exercer pressão junto do Governo, junto da Assembleia da República para que medidas legislativas sejam aplicadas». «Podemos atuar em termos de formação ao consumidor final, mas também podemos atuar nesta vertente do poder legislativo», acrescenta ainda.

Embora preocupada com a realidade atual, Sandra Rodrigues, reconhece que já há bons exemplos, nomeadamente «a nível europeu» de que algum caminho está a ser feito. «As pessoas começam a estar mais sensíveis, a conseguir avaliar o que é um prazo de validade. Na minha infância, na casa dos avós, a maior parte dos produtos eram produzidos por eles próprios e não havia um prazo de validade, as pessoas tinham capacidade de avaliar se o produto estava bom para consumir. Temos que trazer esses conhecimentos para os nossos dias, avaliar se o produto está bom ou não, cheirar, ver se apresenta as mesmas propriedades organolépticas», defende.

EXEMPLOS QUE (JÁ) FAZEM A DIFERENÇA

O Good After «é um supermercado online que nasceu para lutar contra o desperdício alimentar», assim resume uma das responsáveis pelo projeto, Chantal Gispert. Neste supermercado são vendidos, a preços mais baixos, «produtos perto da data de consumo preferencial ou mesmo ultrapassada [algo que a lei permite], ou seja, não são vendidos produtos frescos». Também são vendidos «produtos de linhas descontinuadas, algo que acontece imenso, produtos alimentares que mudam de rótulo ou embalagens e produtos não alimentares como higiene e beleza que mudam o layout por algum motivo». Habitualmente estes produtos eram destruídos, porque não convivem «nas prateleiras do supermercado com os da linha nova»: «Nós queremos dar saída a estes produtos que seriam desperdiçados».

Como nasceu o Good After?

São quatro sócios que lideram este supermercado e que encontraram inspiração «no norte da Europa» onde o conceito já existia. «Investigámos para ver se era possível vender em Portugal com o prazo de consumo preferencial ultrapassado e percebemos que sim. Ninguém fazia isto em Portugal (e continua a ser o único supermercado exclusivo destes produtos), nem em Espanha, os dois mercados onde trabalhamos», recorda Chantal Gispert. É um supermercado exclusivamente online, mas tem sede e armazém no Porto, de onde saem os produtos. Embora o desperdício alimentar já fosse um tema que preocupasse Chantal Gispert e os restantes sócios – ao adotarem comportamentos conscientes –, a verdade é que nenhum estava ligado a esta área. Desde Gestão a Advocacia, os caminhos eram distintos. Ainda assim, o projeto está a correr bem e por isso não estão arrependidos de terem encetado esta “aventura” em 2016. «Há cinco anos não se falava tanto sobre estas questões, agora passou a estar na “moda”, mas foi um longo percurso. No início tivemos que conquistar não só clientes, como fornecedores, que não sabiam desta realidade de que podiam escoar estes produtos, não foi fácil e continua a não ser», admite. Os fornecedores «são todos os que estiverem interessados em vender»: «Fabricantes, representantes de marcas, distribuidores e depois hiper e supermercados e pequenas mercearias».

Do lado dos clientes, a sensibilização constante continua a ser comum. «As pessoas têm cada vez menos medo de comprar estes produtos, percebem que estão em condições, mas ainda há quem fique reticente. Por exemplo, produtos para bebés continuam a ser muito difíceis de vender, como leite em pó e papas», explica Chantal Gispert. A aceitação das pessoas «aconteceu devagarinho, mas entrou para ficar»: «As pessoas estão cada vez mais sensíveis e todas as grandes empresas começam a falar do desperdício alimentar». Chantal Gispert revelou ainda que existem pessoas «registadas no site desde 2016 mas que só há pouco tempo fizeram compras pela primeira vez». «Isto prova que ao longo do tempo conseguimos convencer a pessoa a dar o primeiro passo e depois fica fidelizada. Temos clientes muito fiéis, com compras regulares».

Um dos aspetos que contribui para o sucesso, acredita Chantal Gispert, é «a transparência» com que trabalham. «Somos obrigados por lei a indicar sempre o prazo preferencial na nossa página. Quando não existe indicamos porque é que a pessoa compra a um preço mais económico, seja pela mudança de embalagem, seja pelo que for. Quando existe data, além de estar no site, vem também na fatura», explica. «A pessoa compra um produto e sabe exatamente o que está a comprar, não está a ser levada ao engano e assim tem que ser», acrescenta.

Rentabilizar o que seria destruído

Se evitar o desperdício é uma das principais metas do Good After, rentabilizar estes produtos é também um propósito. «Vimos provar que é economicamente viável, que há pessoas interessadas, é uma forma de dar saída a destes produtos que já tinham perdido o seu valor», salienta a proprietária. No futuro próximo, este supermercado continuará a recuperar o valor dos produtos exclusivamente online. «Estamos bem no digital, já dominamos o processo. Desde o nosso armazém, expedimos para toda a Península Ibérica e só temos este armazém porque a gestão de stock tem de ser muito rigorosa em termos de datas, temos que verificar que aquilo que chega ao cliente chega com a data que comprou», refere Chantal Gispert. Também é possível «levantar a encomenda no armazém», uma opção que tem «vindo a crescer muito».