A história tem-nos demonstrado a tentação humana de seguir líderes carismáticos, figuras emblemáticas que encarnam frequentemente mais imagem do que substância. Esta atração quase irracional não é nova. Acompanhando-nos desde tempos imemoriais. Movidos por emoções, procuramos frequentemente um guia, um salvador, alguém que personifique os nossos anseios e nos conduza por um caminho aparentemente seguro, independentemente de conhecermos ou não as suas verdadeiras ideias ou propostas. Temos fé. Em Portugal, atualmente, assistimos a mais um episódio enquadrado nesta tendência. Existe uma crescente simpatia popular por determinadas figuras que parecem concentrar em si a solução mágica para os problemas do país. O fenómeno é ainda mais intrigante quando percebemos que, em muitos casos, são personalidades cujas posições concretas permanecem desconhecidas ou profundamente vagas. Não são as ideias claras ou as soluções específicas que movem o eleitor, mas sim o carisma, a postura, o símbolo sebastianista associado. Um exemplo atual e particularmente revelador remete-nos para as presidenciais do próximo ano. Nas tendências de voto conhecidas, surge destacado desde o primeiro momento um Almirante, mesmo muito antes de concretizar e apresentar a sua candidatura.
Muitos portugueses vêm neste Almirante uma figura de autoridade e competência indiscutível. Contudo, se pararmos para refletir, perceberemos que pouco ou nada sabemos sobre as suas reais ideias políticas, a sua visão para o país, ou as suas propostas concretas. O Almirante é um símbolo, uma promessa implícita, que mobiliza vontades por aquilo que representa, pela sua popularidade e não necessariamente pelo que propõe. Imaginemos que uma figura mediática como Cristina Ferreira se candidatava. Teria uma probabilidade elevada de vencer! A grande diferença, ironicamente, é que neste caso, pelo menos, conhecemos algumas das suas posições sobre assuntos políticos e sociais. Mesmo assim, votaríamos nela sobretudo pela sua popularidade e carisma, e menos pelas suas ideias claras e estruturadas.
Este fenómeno, que poderíamos chamar de “efeito Messias”, revela muito sobre a nossa forma de agir em sociedade. Seguimos símbolos, figuras messiânicas, esperando delas uma redenção que nunca chega. Talvez fosse altura de começarmos a exigir mais das figuras públicas e de nós próprios enquanto eleitores. Porque votar num símbolo, em vez de votar em ideias, pode ser o caminho mais curto para a desilusão.
Mistério da fé.

