Pensadores antigos como Aristóteles defendiam que o conhecimento científico é criado por indução. Através dela, é possível apreender os primeiros princípios, que são as verdades fundacionais a partir das quais uma teoria científica se constrói. Sem essas premissas universais, cair-se-ia numa regressão infinita e não seria possível chegar a uma conclusão.
Ora, isto leva-nos ao problema da indução: o conhecimento gerado através de indução pode ser falso. Veja-se, por exemplo, a experiência mental da famosa “galinha de Russell”. Uma galinha que é alimentada generosamente todos os dias infere, com base na experiência passada, que o agricultor é benevolente e que será alimentada para sempre, pois cada observação é corroborada por milhões de outras galinhas… Até que chega o dia em que encontra o seu final dramático, provando que a teoria estava, de facto, errada. O mesmo é típico de colapsos do mercado de capitais. Está tudo bem, até que o infame cisne negro aparece.
Assim sendo, a mera repetição de inúmeras observações não garante que estas voltem a ocorrer. Como podemos, então, resolver este problema? A solução, com base na epistemologia popperiana, é apresentada na obra do físico David Deutsch. Em vez de começarmos com observações, e, a partir delas, criarmos uma teoria, devemos partir de um problema. Conjecturar soluções, testá-las criticamente e, finalmente, chegar a uma explicação melhor do que a teoria anterior.
Este processo vê-se, por exemplo, na evolução das interpretações das doenças. Durante muito tempo, pensava-se que as doenças infecciosas se propagavam devido a miasmas: ares nocivos provenientes de matéria em decomposição. Até que surge Luís Pasteur e explica melhor essa história, dizendo que estas se propagam devido à ação de microrganismos. Onde anteriormente a teoria dos miasmas dava conta apenas de correlações vagas, i.e., ares sujos = doença, Pasteur estabelece uma relação causal clara entre micróbios e doença, explicando assim também o sucesso da teoria anterior: ambientes sujos facilitam a proliferação de micróbios.
Outro exemplo é a teoria da gravidade de Newton, que descreve a gravidade como uma força que atua à distância entre duas massas. Mais tarde, Einstein generaliza esta teoria, sugerindo que a gravidade não é uma força, mas a curvatura do espaço-tempo. Massa e energia curvam o espaço e o tempo, e as massas apenas seguem essa curvatura. A gravitação newtoniana ainda é suficiente para resolver problemas clássicos de física do dia a dia, enquanto a teoria geral da relatividade é indispensável para medições astronómicas precisas, hoje essenciais para sistemas como o GPS. Contudo, também esta é incompleta, pois não explica a gravidade quântica, estando, portanto, uma nova explicação à espreita…
Deste modo, o progresso científico vai além da mera acumulação indutiva de observações, assentando sobretudo na capacidade explicativa, e explicações de ordem superior conduzem-nos a um conhecimento mais profundo da realidade: este é o objectivo último da ciência.


