As crises prolongadas, sejam elas de que natureza forem, tornam as pessoas mais vulneráveis e inseguras. O sofrimento e a incerteza no futuro instalam-se e abrem caminho às crenças e aos mitos suscetíveis de lhe trazerem esperança e resposta às suas necessidades.
Foi assim com a crise de sucessão, nos finais do século XVI, durante a qual muitos acreditaram que o Rei D. Sebastião haveria de regressar após a batalha de Alcácer-Quibir para nos salvar do domínio espanhol. Hoje, 450 anos depois, a crise de valores sociais deu lugar a um movimento político, liderado pela direita conservadora e pela extrema-direita, as quais acreditam no regresso do “Rei” Pedro Passos Coelho como primeiro-ministro, cargo que desempenhou no período de 2011/2015. O partido Chega quer tê-lo como um familiar próximo e o PSD está dividido sobre o assunto. Metade vê nele a estrela polar a seguir sem reservas e a outra metade prefere ignorá-lo. Entretanto, o desejado critica quem está no poder e quem luta por lá chegar. Nas suas aparições públicas transpira autoridade moral e saber de experiência feito. Revela sede de mandar. Por ora, o seu projeto político passa por “surfar a onda” do descontentamento até que ela se mostre suficientemente grande para chegar à praia. Quando tal acontecer, anunciará à multidão que o aguardará no areal: “eu sou o Rei que regressou para os salvar da corrupção e da mediocridade económica”.
Mas deixemos a lenda e regressemos, também nós, a coisas mais terrenas, verdadeiras e tangíveis. A crença dos fãs em Pedro Passos Coelho encontrará sustentação no seu passado como primeiro-ministro? Será ele o Homem virtuoso capaz de trazer ética à política e prosperidade à economia? Será ele o inspirador e a força reformadora de que o país precisa? Pode até ser, mas nada disso ficou provado pelo seu desempenho como primeiro-ministro. Pedro Passos Coelho e o seu governo fizeram, basicamente, o papel do funcionário administrativo que cumpre com zelo e dedicação as ordens do chefe. A este, chefe mandante, cabe o mérito ou demérito das medidas tomadas e aplicadas.
Portugal em 2011 estava de cócoras, subjugado à vontade do credor externo a quem o governo cessante havia solicitado um mega empréstimo soberano no montante de 78 mil milhões de euros. A “troika” (BCE, FMI e CE) concedeu a ajuda financeira e, ao fazê-lo, condicionou a sua entrega e a sua aplicação. Sem alternativa, o país político desceu à terra e concertou-se na necessidade de cumprir e fazer cumprir, religiosamente, o exigente caderno de encargos imposto pelo credor. De contrário, a situação de bancarrota concretizava-se em Portugal. O caminho a seguir pelo devedor (Portugal) era estreito e sem espaço para falhas ou maus humores com o credor. Todos nos lembramos ainda da “visita” trimestral daquelas três personagens a descer do avião, engravatadas e de pasta na mão, com o objetivo de avaliar o nível de cumprimento do respetivo contrato de concessão do empréstimo. Falhar o compromisso significava fecharem-nos a torneira financeira e, consequentemente, surgia e escassez do pão na mesa de muitos portugueses.


