Porque é que os emigrantes são menos portugueses que nós?

17 Janeiro 2026

Serve o título desta coluna para lançar um olhar sobre o tratamento dado pelo país às suas comunidades residentes no estrangeiro. O caso que trago é prático, concreto e, mais do que isso, factual. Estamos em período de eleições Presidenciais e parece-me lógico que todo o portador de passaporte português queira ter uma palavra a dizer quanto ao próximo chefe de Estado. Mas do querer ao poder vai uma grande diferença, sobretudo quando falamos de quem vive lá fora. Um emigrante recenseado num qualquer posto consular próximo da sua área de residência é “forçado” a deslocar-se ao mesmo para votar presencialmente, quer possa, quer não possa. Imagine-se o caso de este emigrante estar, por estes dias, em viagem, e ficar hospedado a dois passos de um outro posto consular ou mesa de voto. Chegando lá, vai ver a sua entrada barrada, e isto para mim traduz-se, no limite, num silencioso “vai lá para a tua terra”, que é como quem diz: “Não moras em Genebra? Então tens que votar em Genebra”. Logisticamente falando, até faria sentido na falta de um plano B. Chamemos-lhe, por exemplo, de voto antecipado. Ah, esperem. Essa solução está prevista na lei, mas só abrange os cidadãos nacionais recenseados em território português e que no dia 18 não podem riscar a cruz nas urnas mais próximas de casa. Diz-me a Comissão Nacional de Eleições, em entrevista, que para que um emigrante possa votar antecipadamente noutro lado qualquer do mundo, ou até mesmo na sua terra, em Portugal, tem que haver uma decisão legislativa que assim o determine. “E essa questão foi levantada?”, pergunto. “Não”, responde a comissão, sugerindo que o caso possa vir a ser avaliado internamente e que, talvez depois disso, seja “incluído na lista de recomendações” para o próximo sufrágio. Um dilema com dois pesos e duas medidas, portanto, faz com que os emigrantes sejam menos portugueses que nós. Mas deixemos isto de lado por agora. Vamos mas é votar.