Segundo Sócrates, o verdadeiro caminho para o conhecimento não é através da escrita, mas sim do diálogo interativo, pois este permite encontrar a verdade — ao contrário do livro, que não interage, não se corrige, não responde nem adapta a explicação ao leitor. Em Fedro, Sócrates conta o mito egípcio de Theuth, o Deus que inventou e levou a escrita ao rei Thamus. Theuth afirma que a escrita seria uma ferramenta de sabedoria e memória — mas Thamus contrapõe, que irá conduzir ao esquecimento, pois as pessoas passarão a confiar mais nos registos escritos que na sua própria memória e compreensão. «Pois inventaste um elixir para a memória, mas não para a verdadeira lembrança; ofereces aos discípulos a aparência de sabedoria, não a sabedoria real — Fedro, 275a.». Paradoxalmente, o método socrático sobreviveu, e os seus diálogos foram imortalizados graças aos escritos de seus discípulos, como Platão e Xenofonte.
Volvidos mais de dois milénios, deparamo-nos com uma situação semelhante. Com cada avanço na Inteligência Artificial (IA), mais dependentes ficamos dela. Servimo-nos dela para conselhos de saúde. Utilizamo-la para adaptar a temperatura das nossas camas ao longo da noite, de modo a maximizar o nosso sono. Através do histórico dos nossos dados biométricos, recebemos indicações sobre os limites de treino e dicas para a nossa recuperação. No trabalho, permite-nos libertarmo-nos de tarefas repetitivas. No lazer, planeia as nossas viagens e encontra as opções mais baratas, de acordo com as nossas preferências. Assiste-nos na condução. Ajuda-nos a prever o tempo com maior precisão. É fundamental para a execução de tarefas burocráticas, a larga escala. Automatiza os nossos investimentos. Auxilia-nos na comunicação, incluindo em ambiente experimental, na interpretação dos nossos pensamentos e na sua conversão em texto através de interfaces cérebro-computador, entre outros.
A nossa dependência na IA já é enorme, e cresce a cada dia. Tal como a popularização da escrita reduziu no passado a capacidade de compreender, memorizar e transmitir histórias — como mostram a Odisseia e a Ilíada, passadas oralmente na Grécia antiga e apenas escritas séculos depois — também hoje corremos o risco de delegar à IA competências fundamentais da razão. Contudo, com os novos chats, recuperamos agora a interatividade que Sócrates tanto defendia, e podemos assim empregar o seu método — invertendo também os papéis, pedindo que adote o papel de um mestre socrático e nos questione. Ao recorrer a vários modelos, podemos mitigar a influência dos dados com que estes foram treinados, aproximando-nos assim da verdade — utilizando a IA como uma ferramenta, não como um substituto da nossa razão.


