Às vezes a culpa assemelha-se a um ser vivo. Nasce, cresce, alimenta-se em vários locais e ambientes e acaba, frequentemente, a morrer sozinha. Vem isto a propósito da notícia recente do expresso, segunda a qual um dermatologista faturou 715 000 € ao Hospital de Santa Maria por serviços prestados durante 4 anos, especialmente aos sábados. O escândalo está a ser investigado pela IGAS, entidade que se apressou a aprestar declarações pouco claras: “arrasam o médico e confirmam falhas no mecanismo de controlo” adiantando, que “a gestão do hospital não foi informada”. A ser assim, a investigação, de propósito ou não, omite parte da realidade. Os factos demonstram a manifesta negligência da administração e de toda a cadeia de responsabilidades que se situa a montante do serviço de dermatologia naquele Hospital.
O que ali aconteceu foi consequência evidente do facilitismo “autorizado” durante 4 anos por quem manda, ou devia mandar. O médico em causa, consciente da ausência de controlo sobre a sua atividade, mandou às malvas o código deontológico e ético que está obrigado a cumprir e desenhou a estratégia a seguir. Sob a égide da sua nobre profissão e tomado pela ganância desmedida, desatou a faturar à fartazana sem olhar a princípios ou regras de idoneidade. O comportamento laxista dos responsáveis pela gestão terá potenciado a fraude que alastrou durante anos. Em consequência disso, as finanças públicas ficaram a perder, o SNS e a credibilidade médica também. A ganhar ficou o bolso do médico e a pele de alguns dos seus doentes, dos seus familiares, amigos e afins.
A natureza e a dimensão das irregularidades ali verificadas indicam, claramente, que a culpa dormiu com várias companhias. Não obstante, tudo o indica, irá morrer mais uma vez sozinha.
Ensinam os professores da matéria que a boa gestão assenta em quatro pilares básicos e essenciais: planeamento, organização, liderança e controlo. É mais ou menos pacífico entre os que escrevem sobre o tema, que são estes os princípios fundamentais que devem orientar todos os profissionais que assumem a tarefa de gerir qualquer organização. Há, no entanto, gestores públicos que, ao serem nomeados para o exercício do cargo, ficam deslumbrados com o lugar, gozam a oportunidade no conforto do gabinete e recebem as mordomias que rapidamente se geram em seu redor. O laxismo passa a ocupar o lugar da responsabilidade e da ética. Os resultados do seu desempenho comprovam-no. Gerir bem é estar focado nos resultados da organização a alcançar; é ponderar e decidir; é estar alerta em permanência como um plantão em tempo de ameaça; é incomodar se necessário for para benefício da organização.
Como cidadãos, temos de aprender a valorizar o mérito de quem cumpre, com rigor e exigência, e censurar, da mesma forma, os espertos e oportunistas que proliferam em cada esquina e nos deixam todos os dias mais pobres.
Continuar a despejar milhões de euros no SNS, sem aumentar a qualidade da gestão e a eficiência na utilização dos recursos públicos, é desperdiçar dinheiro e não curar o doente.
Tudo indica que estamos confrontados com uma espécie de doença incurável, contagiosa e resistente, que ameaça tornar-se pandémica.


