A 2 de março de 2020, a COVID-19 chegava oficialmente a Portugal e trazia consigo um mar de mistério e incerteza. Há 11 meses que o medo comanda a nossa vida. Medo de contrairmos a doença, medo de contagiar, sobretudo quem tem contacto com grupos mais vulneráveis. Aliado a este temor fomos obrigados a viver condicionados, restringindo ao máximo os nossos contactos. A palavra confinamento passou a fazer parte do quotidiano de cada um de nós e vários meses depois de termos ficado, pela primeira vez, fechados em casa voltámos à “estaca zero”, mas desta vez em circunstâncias bastante mais dramáticas. Mas afinal, que consequências poderá ter na nossa saúde mental esta inibição de liberdade a que temos estado sujeitos? Foi o que fomos tentar saber junto do diretor do Serviço de Psiquiatria e Saúde Mental do Centro Hospitalar de Leiria (CHL), Cláudio Laureano.

Desconhecimento sobre o futuro afeta “capacidade de resiliência”

Apesar de reconhecer que o confinamento que existiu com o SARS-CoV-1 e com o Ébola foi em «menor escala», quer no «tempo de confinamento», quer no «grupo populacional que esteve confinado», Cláudio Laureano não tem dúvidas que as sucessivas quarentenas provocadas pela COVID-19 irão ter efeitos nefastos na saúde mental. Para sustentar a sua afirmação, o responsável recorre mesmo a estudos realizados a partir desses dois acontecimentos e que comprovam que com o confinamento existe «um impacto grande a curto e a longo prazo na saúde mental».

A dimensão das consequências não é, no entanto, a mesma no imediato ou a posteriori. Se num primeiro momento, a quarentena causa, muitas vezes, «o aparecimento de uma série de sintomas» que vão desde «o nível de irritabilidade, ansiedade, medo, raiva, alterações do padrão do sono e do apetite e do consumo de álcool», Cláudio Laureano prevê que «as maiores consequências» venham a aparecer a «médio/longo prazo», ou seja, nos «três anos consequentes» a este tipo de situações. Nessa altura, acredita, irá disparar o risco do aumento de sintomas de depressão, stress pós-traumático e do abuso do álcool.

Para Cláudio Laureano, a COVID-19 é uma autêntica «roleta russa»: «Se há pessoas que apanham a doença e nem sintomas têm, outras em dois ou três dias desenvolvem quadros gravíssimos e, por vezes, com um desfecho fatal», justifica. Aliado ao medo da infeção e das consequências que daí podem advir, as medidas preventivas para impedir a propagação do vírus levaram a um «afastamento familiar» e o responsável não tem dúvidas de que esse é outro dos fatores que trará «consequências tremendas» para a saúde mental de cada um.

A par disso, está o luto e os funerais que apesar de admitir que as medidas «fazem sentido e devem ser levadas à risca», garante que é uma questão que não pode ser descurada e o que hoje está a acontecer é que muitas pessoas não se conseguem despedir de familiares o que «acarta um enorme sofrimento adicional». «Não acredito que não vá acontecer um aumento de incidências de quadros de luto patológico que, entretanto, já se começam a notar», afirma.

«Nenhum de nós que está vivo assistiu a uma quarentena planetária, a nível global e massiva, com milhões e milhões de pessoas em quarentena em simultâneo e sem fim à vista», sublinha o responsável, e é precisamente o facto de ninguém saber como e quando é que «as coisas vão acabar» que influencia de forma «negativa» a «nossa capacidade de resiliência» do ponto de vista da saúde mental. «Quanto maior, em termos das medidas aplicadas, e mais prolongado for esse isolamento, maiores serão os riscos de virmos a sofrer de alguma doença psiquiátrica», alerta.

Com que sinais devemos ficar alerta?

Nesta «tentativa de adaptação» ao novo normal, Cláudio Laureano reconhece que a necessidade de mantermos um «comportamento vigilante», de se «evitar certos locais», de se adotar «determinados hábitos» e de se «restringir os convívios» poderá causar «algum impacto» no quotidiano. Seja no «humor, na disposição ou nos níveis de ansiedade», esses sintomas, garante, são considerados «transitórios e normais». No entanto, o diretor do Serviço de Psiquiatria e Saúde Mental do CHL aconselha a que estejamos atentos a eventuais sinais que possam levar à necessidade de se receber «algum tipo de apoio», por exemplo, quando surja um «exacerbamento de queixas» que começam a «condicionar a qualidade de vida» do indivíduo. Além disso, defende que se tome uma atitude, no caso de existir uma persistência dos sintomas. «A desmotivação e suscetibilidade emocional são sinais que nos devem fazer ficar alerta», revela.

Cláudio Laureano garante que, atualmente, já é possível observar os impactos do confinamento na saúde mental, principalmente naquelas pessoas que já tinham «alguma predisposição» para «quadros ansiosos e depressivos» e que a pandemia, quase que como um gatilho, levou a que os sintomas «viessem ao de cima muito mais depressa», do que aconteceria em «condições normais».