Identidade… Quantas vezes falamos dela como se de algo imutável se tratasse? Como se nos devêssemos resumir ao que sempre fomos e nos condenássemos a um qualquer firmamento aristotélico! Quantas vezes nos arrogamos de uma qualquer pureza cultural a defender a todo o custo ou, pior, superior a qualquer outra? Quantas vezes esquecemos que somos o produto de uma permanente mudança, de um fluxo contínuo de influências diversas?
Quão errado estamos… Mesmo no nosso caminho individual, a identidade é mutável. O que nos identifica na adolescência não é o mesmo aos trinta, aos sessenta ou no momento do último suspiro. A identidade transforma-se, e ainda bem, porque sem mudança não haveria progresso. Assim é com cada um de nós, assim é com as comunidades, os povos, os países… Portugal não é o mesmo de há cinquenta anos, como o Portugal de oitocentos não é o mesmo do tempo dos Descobrimentos. Da língua nascida do falar latino à tão “nossa” filigrana trazida pelos fenícios, dos orientalismos do estilo manuelino aos aromas do café que tanto apreciamos, o que somos forjou-se na capacidade de absorver e enraizar as múltiplas influências que bebemos nos quatro cantos do mundo. É este o grande fundamento identitário da lusofonia.
Vem esta reflexão, que não se esgota em tão parcas palavras, a propósito do tema adotado pelo Município de Porto de Mós para este ano: a interculturalidade, o encontro de culturas. Pois é, todos os anos é escolhido um tema que serve de mote para as escolas, para as festas do concelho e para outras iniciativas municipais, mas também de desafio à comunidade para se mobilizar e refletir. Porém, algo me diz que grande parte da população não chega a ter perceção deste desafio ou não faz uma pausa para se debruçar nele.
O encontro de culturas apela à valorização do diálogo enriquecido pelo diverso. Este tema já me deu o grato prazer de ter “Viagens na minha Terra” levadas por escolas ao nosso tão peculiar castelo, já me permitiu ver globos com gente de mãos dadas num acerto global em tapetes de flores, já me ofereceu viagens literárias feitas exposições, mas quanto mais deambulo pelas ruas da vila, mais me apercebo que me faz falta uma Roda de Samba.
A população imigrante representa, em cálculos avessos ao rigor, 10% deste “Porto de Mós Somos Todos Nós”, 10% que sinto ausente do desafio deste ano. Será que nos falta assumir esta identidade em permanente mutação? Será que, enquanto comunidade, não estamos a oferecer o que sempre fomos, sem conceder o legítimo espaço àquilo em que efetivamente nos vamos transformando?
A “minha” terra já não é só a azáfama da matança do porco, a descamisada, a moelinha ou a morcela. A “minha” terra tem aromas de açafrão e de outras especiarias que já foram marca de afirmação lusa no mundo. A “minha” terra também é feita de sotaques adocicados nos trópicos, de saber e de arte forjados num mundo já desaparecido a leste. A “minha” terra… a “minha” terra tem a doçura da amarula. A “minha” terra está em mutação e, parafraseando o poeta, é assim que “o mundo pula e avança”.
Neste ano de interculturalidade, quero provar funje com galinha de muamba embalado numa morna de Cesária, quero espraiar a minha alegria numa roda de samba. Quero que parte de nós, de linguajar e hábitos diversos, me acrescentem mundo e me mostrem outras formas de viver a saudade.
Por também já ser a minha identidade, quero a minha roda de samba.


