As alterações trazidas pela presença do vírus da COVID-19 têm influenciado inúmeros setores da economia. A restauração e a hotelaria são dois dos que têm sofrido diretamente, em primeiro lugar porque estiveram um grande período de portas fechadas, e em segundo porque, depois de abrirem, há ainda muito receio por parte de clientes relativamente a eventuais perigos de contágio, e que por isso vão adiando uma visita àqueles espaços. A juntar a este panorama já nada favorável, há ainda o facto de muitos dos eventos com um elevado número de pessoas terem sido cancelados, adiados ou reformulados, realizando-se com muito menos pessoas, por via das normas emanadas da Direção-Geral da Saúde.

Perante este cenário, O Portomosense foi falar com proprietários e gerentes de estabelecimentos de hotelaria e restauração abertos do concelho, alguns deles com largos anos de história e notoriedade junto das nossas gentes e não só. O retrato geral traçado é negativo, sendo mesmo apontado que esta é «a pior» crise a que o setor já assistiu.

2021 pode ser de retoma, depende da evolução de contágios

Na Quinta da Aldeia, em São Bento, o «foco principal são os casamentos» ainda que ali decorram também outros eventos. De acordo com Nelson Bastos, administrador do grupo Quinta dos Lagos, que detém este estabelecimento, o grupo terá sido «pioneiro [na retoma], logo em junho»: «Assim que houve medidas para a restauração, agarrámos nelas e começámos a fazer casamentos. Chamámos delegados de saúde para nos vistoriarem e nos darem normas e indicações porque, infelizmente, o nosso Estado não nos deu diretrizes em relação ao mundo dos casamentos», revela.

«Os noivos até querem casar, mas os convidados não querem ir aos casamentos» e, neste momento, a quinta retomou apenas 1% da sua atividade. «As pessoas estão disponíveis para andarem nas praias aos montes, nas festas políticas, nos centros comerciais, mas dizem que os casamentos são um foco grande de contaminação», conta, acrescentando que os espaços que organizam este tipo de eventos «têm mais do que condições para poderem trabalhar, com distanciamento e higiene». Nelson Bastos salienta ainda que os casamentos que têm realizado «têm corrido maravilhosamente bem».

Obviamente, foram necessárias algumas adaptações: «Em portas já existentes, tivemos que criar zonas de entrada e de saída. É obrigatória a máscara enquanto as pessoas andam de pé, e a música tem que ser nos espaços exteriores», enumera. Além disso, «o serviço do “copo de água”, à noite», dá-se agora em moldes diferentes. «Os convidados só precisam de perceber qual é a dinâmica e depois é super tranquilo. Só entram x pessoas de cada vez, temos colaboradores junto a cada uma das mesas. Cada convidado agarra no seu pratinho e é servido por um dos nossos funcionários», explica. Outra das medidas adotadas é que, no início de cada casamento, a quinta pede «aos noivos que leiam um texto aos convidados, um apelo para que adiram às medidas», refere o administrador.

Nelson Bastos não esconde que «os primeiro noivos, de junho, estavam muito incomodados e ansiosos», mas afirma que «agora é só entrar no registo». «O mundo não vai acabar, temos é que aprender a viver com esta realidade porque isto não é uma coisa que vá desaparecer de hoje para amanhã», considera.

Quanto ao seu negócio, diz-se receoso «até ao final deste ano», mas positivo relativamente ao próximo. «Quero acreditar muito que a partir de março do ano que vem, entramos na normalidade. Caso contrário, no mundo dos eventos, é o fim de muitos negócios. Vimos de uma época baixa – de novembro a março – e quando íamos entrar no nosso “raio de ação”, parámos obrigatoriamente. Estamos a fazer nove a 10 meses praticamente sem trabalho», sublinha. Pondo-se a hipótese de uma segunda vaga, Nelson Bastos questiona: «Quantos de nós, no mundo dos eventos, é que vamos cá estar, no ano que vem, para contar alguma história? Vamos ver quem se vai aguentar…».

O medo é já desculpa

Visão semelhante e com idênticas reservas, tem Laura Machado, sócia-gerente da Quinta Júlia dos Ovos, no Juncal. «Vamos ter os meses de agosto e setembro fraquinhos, mas prevemos outubro e dezembro relativamente bons, caso as coisas não descambem ao nível das infeções. Se as coisas voltarem a estagnar a partir de outubro, vai ser complicado», considera. Se isso não acontecer, «em dezembro há os jantares das empresas» que podem vir dar algum alento às contas.

Nesta quinta, fechada de março a julho, realizam-se todo o tipo de eventos, «com um mínimo de 20 pessoas», porém, neste período, são poucos os que têm, de facto, acontecido: «Tivemos quase 100% de cancelamentos. Não somos um negócio que possa ir trabalhando devagar. No mês de agosto, a redução estará nos 70%», ao nível dos eventos, mas há que ter em conta que, em cada um há também «redução do número de pessoas», explica Laura Machado. A empresa que conta com «dois anos de eventos», encontrava-se «num crescimento interessante» e, quando reabriu, viu-se a «começar de novo». «Muitos dos eventos que tínhamos foram cancelados porque estamos direcionados para todo o tipo de almoços e jantares como crisma, profissões de fé, aniversários, coisas que são facilmente canceladas e não adiadas», explica.

Laura Machado não considera, no entanto, que o medo seja, hoje em dia, um fator fundamental: «Quando as coisas começaram a abrir, realmente as pessoas tinham medo. Agora, acho que dão [esse argumento] como desculpa. Têm receio, mas mais em termos financeiros», começa por explicar. No seu ponto de vista, «estamos a falar de eventos em que as pessoas gastam dinheiro, porque compram um vestido novo ou porque, no final, dão a fogaça aos noivos», por isso, «quando as pessoas são convidadas para eventos em que não têm que “dar nada em troca”, mostram recetividade, para os outros, negam-se bastante», frisa.

Além destes serviços, a Quinta Júlia dos Ovos tem também «três alojamentos». «O que eu sinto é que se tivesse mais, estava cheio», revela Laura Machado, que acrescenta que «os portugueses estão a fazer férias cá dentro» e que «procuram preços acessíveis», assim como lugares que «não tenham muita gente, onde se possa ter distanciamento». Reconhece, no entanto, que para «quem trabalhe com o turismo com preços mais elevados, que tenha mais camas para ocupar e que viva muito dos estrangeiros, esteja a sentir-se dificuldades, porque só os portugueses não chegam para sustentar», conclui.

A reabertura foi “quase como abrir uma casa nova”

Há, com certeza, por aqui, pouca gente que não conheça o restaurante Dom Abade, junto ao IC2, na freguesia de Pedreiras. Famoso pelo seu buffet à hora de almoço, mas também pela organização de eventos como casamentos e batizados, fechou portas a 15 de março, ainda antes de ser decretado o Estado de Emergência, devido ao medo: «A incerteza era muito grande, as pessoas estavam muito confusas, a equipa também estava com algum receio, então decidimos encerrar», conta Célia Volante, sócia-gerente da empresa. Nas duas semanas seguintes, diz ter recebido uma «enxurrada de chamadas» e esses dias bastaram para «perder tudo»: «Perdemos todo o turismo de 2020, todos os eventos, só temos quatro até ao final do ano», quando, em tempos normais, entre fevereiro e novembro, o restaurante tem «turismo internacional quase todos os dias, de segunda a sexta, ao sábado, casamentos e batizados e ao domingo maioritariamente batizados»; este ano «desde o dia 28 de março até ao final de outubro» todos os fins estavam «ocupados com eventos», revela. «Quando abrimos a nossa porta, no dia 24 de maio, abrimos a zero, praticamente, foi quase como abrir uma casa nova porque todo o trabalho de uma vida, de pesquisa, foi desmarcado», afirma Célia Volante.

E se dúvidas houvesse acerca da veracidade do que nos conta, o esclarecimento vem com os números da faturação: «Até finais de junho, a nossa percentagem de trabalho era de 10% relativamente ao período homólogo do ano passado. O mês de julho foi relativamente melhor, mas tivemos quebras de 78%. Agosto está a ser caótico, não conseguimos passar dos 25%», avança. A título de exemplo, acrescenta que, no dia em que falava a O Portomosense, 10 de agosto, tinha 30 clientes na sala, quando, por norma, a esta altura, costumava ter entre 200 e 250. «Não temos emigrantes, não temos turismo e o mercado interno não chega para dinamizar a economia», atira.

No seu entender, o fator mais importante para este comportamento é «o medo, instalado pela comunicação social». Além disso, também os «quadros de referência de possíveis fontes de contaminação», que colocam «os restaurantes em terceiro lugar», têm a sua quota parte de culpa. «É uma informação, na minha opinião, falsa, porque há segurança. O que dizemos aos clientes é que é mais seguro ir a um restaurante do que a um supermercado, mas as pessoas continuam a ter receio», sublinha. Outro ponto preponderante, de acordo com Célia Volante, é o decréscimo de rendimentos das famílias, provocado pelo «lay-off que tem sido praticado pela generalidade das empresas». A terminar a lista, aponta o teletrabalho que é, para si, «a morte da economia, porque faz com que a pessoa não saia de casa durante todo o dia». Estes fatores, além de causarem constrangimentos na restauração e na hotelaria, trazem também problemas a montante da linha económica: «Se não temos trabalho, o senhor que vende as batatas fica com elas, o vendedor de pintos, frangos, patos, carne de porco ou novilho, não vende. Dantes, se calhar, comprava 100 quilos de abacaxi por semana, neste momento estou a comprar cinco ou 10», exemplifica.

2021 será um “grave problema”

«O setor está a passar a pior fase da vida», afirma Célia Volante, acrescentando que nas várias décadas de trabalho que tem na área, não se recorda «de nenhuma crise em que acontecesse o que está a acontecer neste momento». «É uma angústia diária pensarmos se conseguimos faturar para cumprir todos os nossos compromissos. A nossa preocupação quando nos levantamos é saber se vamos conseguir, nesse dia, faturar para os custos fixos. Neste momento, na maior parte dos dias, não estamos a conseguir», revela.

Célia Volante considera que no próximo ano vai ter «um grave problema», com a sobreposição de eventos. «Temos os que já estavam agendados e temos os de 2020 que foram empurrados para 2021», explica. Assim, os trabalhos que seriam perdidos «temporariamente», poderão ser perdidos em definitivo se o restaurante não tiver capacidade para os realizar devido à escassez de datas disponíveis e à sobreposição de eventos. Além disso, Célia Volante alerta que «se no próximo ano não houver alterações relativamente às orientações da Direção-Geral da Saúde, o problema será igual ao deste ano». E se isso acontecer, «como é que se consegue gerir um espaço em termos económicos mantendo esta situação? É insustentável», conclui.

Sem baile “não querem vir”

A Quinta do Moinho, em Alvados, tem a sua atividade direcionada para os grupos que, além do almoço, queiram também alguma animação, durante a tarde, com música e baile. Excursões, grupos de antigos militares, encontros de idosos organizados por Juntas de Freguesia ou Câmara Municipais, estes são alguns dos eventos habituais do estabelecimento do qual António Ferreira é proprietário. Cinco meses depois de ter sido decretado o Estado de Emergência, a Quinta do Moinho continua fechada sem realizar qualquer evento.

«Eu posso servir refeições, só que os meus clientes querem animação, querem música, querem festa, querem estar à vontade, e dizem que sem festa, não querem vir», revela. Além disso, os grupos que acolhe são, muitas vezes, de outras zonas do país, deslocando-se de autocarro. Também esses veículos só podem «trazer uma parte da sua lotação», o que faz com que as pessoas «vejam acrescidos os custos». Por isso, na opinião de António Ferreira, os seus clientes «estão à espera que as coisas melhorem, que haja música e que os autocarros possam vir cheios, porque assim não é rentável para ninguém».

O proprietário mantém-se em contacto com alguns organizadores de excursões que lhe reportam o medo sentido pelos clientes habituais e que «são, normalmente, pessoas de mais idade». «Contam-me que há pessoas que não saem de casa senão para o essencial, ir à farmácia, ao supermercado… As pessoas estão assustadas e a televisão não tem facilitado com as notícias dos problemas aqui e noutros países», considera. Além do receio pela sua saúde, António Ferreira considera que «a parte económica» também tem – e vai continuar a ter, no próximo ano – peso na decisão: «As pessoas, de todas as camadas [sociais] têm o poder de compra diminuído. Se têm menos dinheiro, seja por lay-off, por desemprego, por a vida estar cara ou por as reformas serem pequenas, evitam passear, porque primeiro está a renda da casa, a comida, a água, a luz e o gás, vai sobrar pouco para se divertirem e passearem», afirma, considerando que o próximo ano «não vai ser fácil» e, «como dantes, nunca mais».

Para o proprietário, «os primeiros seis meses de 2021 vão ser parecidos com uma desgraça». A época que já é, normalmente, baixa, será este ano pior. «Pode aparecer um grupo ou outro que queira só almoçar, que passe na zona, conheça a quinta e queira um espaço amplo e com pouca gente para almoçar ou então para assinalar alguma data especial», fora isso, António Ferreira diz prever «as coisas negras». «Tenho muita pena por mim, mas também pelas pessoas que têm aqui o seu part-time para fazer umas horas e ajudar na vida», termina, acrescentando que esta fase está a ser «mais difícil» do que «as pessoas possam imaginar».