“SALVADOR”, vamos voltar a falar de séries!

11 Março 2026

Vi a série “Salvador” na Netflix e, sinceramente, ainda estou a digerir aquilo. Quem olha de fora pensa que é só mais uma história de hooligans e de violência entre claques, mas se ficarmos por aí não percebemos nada. A série não é sobre futebol, é sobre um vazio, sobre o que acontece quando um pai/mãe se demite (e não estou a falar de uma ausência qualquer, estou a falar daquele pai que se separa, que sai de casa e que decide que a vida dele agora é outra).

Há toda uma geração de pais que “abandonou” os filhos a meio do caminho. Saem de casa e, entre novas mulheres, o álcool ou simplesmente o egoísmo de quererem “viver a vida”, deixam os filhos entregues a si mesmos. Aparecem pontualmente, assistem de longe, dão uma prenda ou um jantar de vez em quando para aliviar a consciência, mas emocionalmente não existem. Acham que ser pai é um cargo honorífico que se exerce quando dá jeito, quando a agenda permite ou quando a nova namorada não se importa.

O problema é que a vida não tem botão de pausa e enquanto esses pais estão ocupados a refazer-se, os filhos estão a crescer e a sentir esse abandono. Os miúdos sentem que foram trocados, que são um peso ou uma herança incómoda do passado.

Nesta série da Netflix, vemos exatamente o resultado disto, porque quando não há um pai em casa para ser o orientador/apoio, os miúdos vão procurar essa estrutura na rua. A claque torna-se a família que não os abandonou, porque ali há regras (algumas duríssimas), há pertença e eles são “alguém”. Um adolescente prefere mil vezes pertencer a um grupo violento do que ser o filho “esquecido” de um pai que só aparece para a fotografia.

O que mais magoa na série é o momento em que esses pais se lembram de voltar. Quando batem à porta anos depois, armados em figuras de autoridade ou cheios de conselhos, e dão de caras com um estranho. Querem recuperar o tempo perdido, querem “ajudar”, mas já é tarde. A adolescência não espera que o pai se canse da borga ou que a vida pessoal dele se organize.

O Eduardo Sá diz que os filhos não precisam de pais perfeitos, precisam de pais inteiros. Mas o que vemos na série são os restos de pais, homens (ou mulheres) que se demitiram da responsabilidade e que agora carregam um remorso que lhes vai pesar para o resto da vida. É a culpa de quem sabe que falhou, no que era essencial, e que agora só lhe pode restar assistir à queda dos filhos, sem conseguir fazer nadinha…

No fim, este retrato é um abanão para quem acha que pode ser pai/mãe à distância.

Na verdade, ser pai, como na série, não é um direito que se reclama quando se tem muitas saudades, mas é estar lá sempre, mesmo nos dias em que é tão difícil e desconfortável, seja por razões dos filhos ou dos adultos.

Se este meu desabafo servir para alguém parar e olhar de frente para o filho que deixou “pendurado” enquanto refazia a vida, então já valeu a pena.