O Centro Hospitalar de Leiria (CHL) vai prestar apoio aos profissionais e população que sintam a sua saúde mental comprometida, sobretudo como consequência da pandemia de COVID-19. Esta iniciativa surge agora, mas não pela primeira vez. «Nós já tínhamos desencadeado este processo na primeira vaga da pandemia, porque logo nesse momento sentimos necessidade de acautelar alguns aspetos como a ansiedade, insegurança e medo que esta situação provoca, com o intuito de evitar estes sentimentos», explica o diretor do Serviço de Psiquiatria e Saúde Mental do CHL, Cláudio Laureano. Em relação aos profissionais de saúde, que estavam e estão na linha da frente no combate, este apoio seria ainda mais necessário para evitar «situações de burnout» em que os profissionais se sentissem fisicamente e emocionalmente esgotados. A verdade, explica o responsável, é que nessa primeira fase a adesão à iniciativa acabou por se revelar em menor número do que se esperava: «As pessoas procuraram apoio mas não de uma forma tão substancial quanto se poderia supor inicialmente». Agora, com um aumento de casos salientado, o CHL e a equipa de Psiquiatria e Saúde Mental percebeu que as coisas se voltaram a «complicar» e que «havia a necessidade de reforçar esta disponibilidade».

Existem «várias formas» de chegar até este apoio: «Muitos dos profissionais do hospital têm-nos sido encaminhados pela consulta de medicina do trabalho», sendo depois agendada «uma primeira avaliação». Há profissionais também a contactar diretamente ou através de canais de comunicação, nomeadamente pelo telefone, tendo sido criada uma linha para o efeito (244 817 090), a funcionar entre as 9 horas e as 13 e as 14 e as 17, de segunda a sexta-feira e também através do e-mail ([email protected]). Já os utentes em geral podem contactar através do e-mail [email protected] O número de telefone é o mesmo que é utilizado pelos profissionais, com igual disponibilidade horária.

Este apoio é «realizado por profissionais do Serviço de Psiquiatria e Saúde Mental do Centro Hospitalar de Leiria», através de uma equipa médica «constituída por alguns especialistas e internos da especialidade, uma psicóloga, assim como enfermeiros especialistas em saúde mental», explica Cláudio Laureano. O diretor acredita que a palavra «resiliência» define muito bem a forma como os profissionais de saúde se estão a bater nesta luta contra a pandemia, numa situação «que não deixa ninguém imune». No entanto, tanto nos profissionais, como na população em geral, o responsável prevê que as consequências «se venham a manifestar a posteriori».

Impactos a vários níveis

«Este impacto começa a sentir-se, mas será crescente nos próximos tempos, refletindo-se a vários níveis», defende Cláudio Laureano. Por um lado está o medo «da pessoa ser contagiada, depois o medo de contagiar, sobretudo os familiares, quando são idosos ou doentes de risco». Todos estes receios são geradores «de elevados níveis de ansiedade e nem todas as pessoas têm as mesmas estratégias para gerir estas situações». «Sabe-se por experiências de outras avaliações clínicas, de situações de confinamento em muito menor escala, que, de facto, o confinamento tem um impacto tremendo sobre a saúde mental», salienta o diretor, lembrando que estes impactos agudizam-se nos grupos vulneráveis, nomeadamente «nos idosos ou pessoas com algum tipo défice e que tinham apoio de terceiros ou de centros de dia» e que perderam «esses contactos sociais».

O responsável lembra ainda outra questão que a «médio ou longo prazo» vai condicionar a saúde mental das pessoas: a crise económica. «A perda de rendimentos, o desemprego de longa duração, toda a precariedade social que daí vai acabar por advir, sabe-se que tem enorme impacto». Cláudio Laureano alertou também para a questão dos funerais, feitos «com limitações muito grandes» e que de «certeza absoluta resultará no desenvolvimento de um número elevado de lutos patológicos».

Desvalorização das doenças mentais

Cláudio Laureano diz que «é óbvio que as doenças de saúde mental são muito desvalorizadas porque existe muito preconceito». «Há um grande estigma que muitas vezes começa por nós próprios, nós profissionais, nós doentes, nós familiares dos doentes», frisa. O profissional vai mais longe: «Ir ao psiquiatra ou ao psicólogo é só para maluquinhos ou significa que somos fracos, que temos a cabeça fraca. A doença mental não é vista como outra doença qualquer. É um órgão que adoece como também adoecem os outros órgãos». «Sabe-se que a depressão atingirá cerca de 15 a 20% da população ao longo da vida, e calcula-se que, nos próximos anos, possa efetivamente ser a doença que maior incapacidade de trabalho vai trazer», conclui.