A minha primeira tentação ao desembrulhar mais uma crónica foi pegar num dos temas cinzentos deste mundo virado ao contrário.
Mas, saímos agora de abril, que merece ser assinalado e celebrado com a mesma energia e convicção daquele “dia inicial inteiro e limpo”. Até porque Porto de Mós tem um motivo duplo de celebrar, abril foi o mês que viu nascer um dos acontecimentos culturais mais interessantes dos últimos anos. Escolher abril para realizar a primeira Feira do Livro é uma escolha feliz e cheia de bom simbolismo. A palavra é a mais forte expressão da liberdade. Os livros convidam-nos a sonhar mais, a descobrir melhor, a refletir de forma mais plural. A palavra é resistência, assim como resistir é não deixar que abril se desvaneça.
A festa foi bonita pela presença dos livreiros, a adesão das pessoas e as sessões com escritores. Vejo em Porto de Mós chão fértil para receber tão preciosa semente.
A primeira Feira do Livro de Porto de Mós convidou-me a sonhar com passos mais ousados na criação de um ponto de encontro entre a palavra e a cultura. Imagino uma Feira do Livro que se expanda para um Festival Literário que transborde da tenda do Parque Verde e invada o nosso Castelo, as praças, as escolas, a Biblioteca, as associações, os restaurantes e os cafés. Imagine-se todos estes locais palcos de livros, poesia, música e criatividade. Que bom seria podermos ter percursos literários, menus especiais inspirados na literatura, oficinas para crianças e jovens, leituras encenadas, declamações de poesia… Mais do que um evento efémero, a criação de uma marca de orgulho e de pertença.
Temos tanto para nos inspirar, desde Óbidos, Reguengos de Monsaraz, ou Leiria, a mostrar que nunca é tarde. Mas podemos ir até Wigtown, na Escócia, ou Hey-on-Wye, no País de Gales.
Temos uma equipa da biblioteca extraordinária no seu amor pela literatura, temos leitores. Temos a nossa Vila Forte inscrita na maior obra de referência da literatura portuguesa. Basta haver interesse político e está bem ao nosso alcance colocarmos Porto de Mós no mapa da cultura.


