Troquemos vinho e ferraris por filosofia

25 Janeiro 2026

Querida professora Aline,

Esta crónica é para si. Ao longo dos anos continuo a recuar esporadicamente até às suas aulas de filosofia na Escola Secundária de Porto de Mós, naquele final dos anos 90. Um tempo em que bem podemos aplicar a fórmula gasta do “éramos felizes e não sabíamos”.

Obrigada por me ter apresentado à filosofia, ao pensamento crítico, à reflexão sobre o mundo e à beleza da ética e do conhecimento. No auge das certezas da adolescência, foi estruturante ser confrontada com  diferentes pontos de vista, com a dúvida, com a importância de refletir e questionar sobre aquilo que nos é servido no menu da vida. Foi como se me tivesse regado uma semente da inquietude que me acompanha até hoje.

Escrevo-lhe para lhe agradecer a sugestão de leitura que cumpri, com mais de 20 anos de atraso. Li recentemente o livro Ética para um Jovem, de Fernando Savater e, se calhar, não foi tarde, foi no momento certo.

Vivemos tempos em que o mundo está todo virado do avesso e que conceitos como ética e moral parecem coisas menores e insignificantes num mundo que parece apostado em regredir para a lei imperial do mais forte.

A ética descrita como a forma de alcançar uma “boa vida”, assente na liberdade de escolha e no respeito pelos outros será uma ideia pouco popular para uma parte de nós e, por isso, professora Aline, acho que a filosofia nos faz hoje mais falta do que nunca.

O livro foi escrito para os jovens. Comprei-o também na secreta esperança de que daqui a uns anos o jovem desta casa tropece nele. Mas merece ser lido por todos. 

Pelo menos, a mim fez-me bem relembrar os conceitos básicos: agir eticamente é aprender a usar a liberdade de forma consciente, responsável e humana, construindo uma vida que valha a pena ser vivida. E que viver bem não é viver sozinho: respeitar os outros é essencial, porque a convivência, a empatia e a justiça fazem parte de uma boa vida. Sem consensos absolutos, mas com a necessidade de pensar, questionar e decidir conscientemente.

 O ano começou a fazer-nos lembrar que é sempre possível piorar o que já parece muito mau. A humanidade e a decência não são os temas da moda. O amor é “novo punk”, como diz a Ana Markl. 

Começo o ano pessimista, mas recuso-me a deixar cair a esperança de que haverá alguma centelha de ética que nos salve.

Talvez num misto de inspiração por estas eleições presidenciais tão concorridas, cruzado com os desejos do Novo Ano, atrevo-me a dizer que, se eu fosse candidata, não prometia vinho canalizado nem um Ferrari à porta de cada casa. Prometia antes: aulas de filosofia para todos! Não resolve tudo, mas pelo menos ajuda a desentorpecer a mente e já não é pouco.