Tudo começou com um almoço «à boa maneira portuguesa». Pão e vinho sobre a mesa e dois amigos: Carlos Alberto Jorge, presidente do conselho de administração das Grutas de Mira de Aire, e Amílcar Malhó, jornalista de gastronomia e vinho. «Marquei um almoço com o Carlos Alberto que me mostrou uma garrafa de Ermelinda Freitas de 2004», contou o jornalista. E continuou: «Estávamos em 2017, era um vinho de 2004, fiquei espantado, um vinho com uma vida impressionante». Esta era uma das várias garrafas de vinho que Carlos Alberto já colocava a estagiar nas grutas para consumo próprio. A ideia estava prestes a expandir-se. «Sou amigo da família Ermelinda Freitas e contactei a Leonor Freitas [atual proprietária] e marcou-se outro almoço para virem provar», explicou Amílcar Malhó. Começou, assim, o projeto que fez nascer o mais recente produto da Casa Ermelinda Freitas, o Vinho das Grutas Reserva, apresentado a 31 de maio, precisamente nas Grutas de Mira de Aire.

De uma passaram a 12 mil garrafas da marca nas Grutas, a «80 metros de profundidade, uma temperatura constante de 17 graus e também humidade constante», como explica Carlos Alberto Jorge. «Eu gosto muito de vinho e o da Ermelinda é extraordinário, tive a sorte de encontrar gente com sensibilidade», sublinha. O presidente das Grutas olha para esta «parceria fabulosa com muito orgulho»: «São estas parcerias que nos dão alento para ir em frente», salienta o responsável.

O desafio de transportar 12 mil garrafas foi hercúleo. Joana Freitas, quinta geração da Casa Ermelinda, filha de Leonor Freitas, abraçou a missão: «Não havia estrutura para pôr os vinhos, investimos nela, foi um mês engraçado para perceber como poderíamos montar tudo». O transporte das garrafas foi feito em mochilas, onde cabiam 12 de cada vez, uma tarefa a várias mãos. Das 12 mil garrafas da colheita de 2015, colocadas em março de 2017, agora retiraram-se seis mil, mantendo-se a outra metade em estágio. As agora retiradas vão ser substituídas por outras, o que garante «a continuidade do projeto».

Vinho é identidade dos portugueses

Também para Leonor Freitas esta é uma «parceria perfeita»: «Quero agradecer ao Carlos Alberto pelo apoio excecional, nunca sentimos qualquer dificuldade». A proprietária da casa de vinhos de Palmela explicou ainda que o lançamento estava para ser em 2020 quando se assinalou o centenário da casa, mas a COVID-19 impediu. «A Mãe Terra dá-nos uvas com que fazemos o vinho, desta vez podemos dizer que é das entranhas da Terra que vem este vinho, onde esteve a dormir cinco anos», refere Leonor Freitas. A empresária considera que este «vai ser um marco na história da marca e também das Grutas», lembrando que o vinho é um dos «produtos que mais contribui para afirmar Portugal» e que com este projeto se potencia o enoturismo, «juntando o vinho a uma das 7 Maravilhas Naturais».

O secretário de Estado da Agricultura e Desenvolvimento Rural, Rui Martinho, participou na sessão, partilhando da opinião de que este é um produto «embaixador do que melhor se faz» no país. «É um gosto enorme estar aqui, acompanhado por pessoas que põem tanta paixão naquilo que fazem», referiu, destacando a «importância da Casa Ermelinda Freitas» no setor. Para o governante o «vinho não é um simples produto. Num copo de vinho cabe toda a cultura e o património de um país». O presidente da República não pôde estar presente mas deixou, em vídeo, uma saudação à «iniciativa da Casa Ermelinda» e destacou «a importância que tem na vinicultura portuguesa».

Para o presidente da Câmara de Porto de Mós, Jorge Vala, esta «é uma iniciativa muito importante» para o concelho «que não tendo vinho, tem que o comprar a quem o produz bem»: «Trazido para aqui a estagiar é uma conjugação que, de certeza, torna o vinho ainda melhor».
Apresentação feita, chegou a hora que todos esperavam: a prova do vinho. Vinhos do mesmo ano e colheita, de um lado o vinho que estagiou nas Grutas, do outro, o que estagiou na cave da Ermelinda, explicou o enólogo produtor, Jaime Quendera. Os rostos de quem teve a oportunidade de provar diziam tudo, os paladares foram conquistados. «A gruta faz com que o vinho evolua mais lentamente, afinando e polindo a sua riqueza, essa é a diferença», explicou o enólogo. Este vinho vai estar à venda nas Grutas, na Casa Ermelinda Freitas e na garrafeira WineNot?, em Lisboa, por 25 euros.

“O vinho não é uma bebida, é de facto uma cultura”

Toy, além de um cantor conhecido, é também fã e embaixador da marca Casa Ermelinda Freitas, fazendo questão de estar presente na apresentação do vinho.

Qual a diferença do vinho que estagiou nas Grutas para o que esteve na cave da Ermelinda?
É muito difícil para uma boca comum sentir a diferença, é como a mesma música tocada por músicos diferentes, dificilmente o povo nota, normalmente apenas os músicos notam. Também neste vinho as diferenças são notadas por enófilos, escanções e enólogos, é mais difícil para a boca comum senti-la, mas se estivermos atentos, sentimos. O vinho perdeu a acidez, fica mais redondo. A casta Cabernet Sauvignon normalmente tem um pimento verde muito destacado por baixo da língua que ficou muito menos agressivo.

Qual a importância do vinho para a cultura portuguesa?
O vinho não é uma bebida, é de facto uma cultura. Tem vida própria, nasce na videira, é colhido, é fonte de rendimento para muitos e Portugal tem uma história no vinho muito importante. Tem tanta importância na vida das pessoas que, bebido com moderação, é a absorvência de uma cultura.

Porque quis estar aqui hoje?

A Leonor Freitas é mais do que uma irmã, conhecemo-nos há imensos anos, já era muito amigo da mãe da Leonor, a dona Ermelinda, e comi muita comidinha feita por ela. Numa altura difícil da minha vida, a Leonor foi muito importante para mim e eu sei que numa altura menos boa da sua, também fui para ela. Nem que eu estivesse na China, hoje estaria aqui.

Fotos | Jéssica Moás de Sá