Ventos de mudança, sonhos de esperança

10 Março 2026

Bate forte, fortemente, como quem clama por mim. É o vento urgente, rugiente, e a chuva que há muito não caía assim. A madrugada do dia 28 de janeiro de 2026 vai ficar inscrita na nossa memória como (mais um) evento traumático, que contaremos aos nossos filhos e aos nossos netos, cujos olhares inquietos nos apertarão o coração como grilhos.

Por mais que aprecie um bom drama, prefiro-o confinado às acolhedoras salas de um cinema (preferivelmente, não submerso); senti-lo na pele é assustadoramente apocalíptico. Ser confrontado com a região onde nascemos, crescemos e vivemos reduzida a um cenário de destruição digno de um teatro de guerra é quase inconcebível de assimilar. Foi como ter sido transportado para uma realidade alternativa, onde a furtiva inevitabilidade das alterações climáticas atingiu proporções dramáticas.

Três décadas são uma molécula de água na já ínfima gota de tempo que, no oceano da existência, representa a vida humana. E, no entanto, em pouco mais do que isso, já testemunhei uma pandemia global, confinando-nos a existir temporariamente dentro de quatro paredes; fogos e mais fogos lavraram incessantemente, impiedosamente, e entre outras tragédias, consumiram grande parte do pinhal de Leiria, o nosso pulmão eterno. O resto do pinhal, esse, voou o mês passado, quebrado sob a implacável fúria de ventos ciclónicos, que levaram também telhados, postes, empresas, casas, vidas, sonhos. Permitam-me a personificação poética para sugerir que, por tudo isto, o céu chorou, mas o seu pranto trouxe cheias, cheias de força, que afogaram o ânimo que ainda pudesse restar à mais otimista das almas.

Não têm sido anos meigos. Estar vivo em 2026 é uma provação constante. Não é fácil levantar a cabeça e sorrir, confiante no futuro. Mas lutaremos. Todos, em conjunto, sobreviveremos. A resiliência humana não conhece limites. Reconstruiremos. Replantaremos. Olhem para o vosso lado e estendam a mão a quem pareça estar a afogar-se neste mar de calamidades. Combatam a sensação de impotência com pequenos atos de benevolência. Liguem aos vossos amigos, abracem os vossos pais, amem os vossos filhos e quem escolheram para, juntos, os trazerem a este mundo. Haverá mais tragédias. Haverá mais dias em que a esperança se manifestará em contexto de invisibilidade. Mas mesmo os corações mais empedernidos amolecem perante a imensurável força do sonhar com um amanhã melhor.