Variações da pressa de chegar

3 Julho 2026

Portugal é um país de diversos maus hábitos, qual filho rebelde em perpétua adolescência. Mas nem todos são vistos com maus olhos. Existe uma cultura de glorificação de certos rituais nefastos que inverte a forma como deveriam ser percecionados, cuja trágica consequência imediata é um aumento desnecessário de fatalidades.

Um desses hábitos é a condução em excesso de velocidade. Na nossa encarnação fitipaldesca, todos nos achamos pilotos de Fórmula 1 com direito a pole position, devorando cada curva com mãos de aço e antecipando o final de reta como se fosse um arco-íris com um pote de ouro no fim. A pressa de chegar não precisa sequer de justificação.

Cerca de dois terços das infrações rodoviárias em Portugal são por excesso de velocidade. É a principal causa de mortes na estrada. No entanto, criticamos tudo menos isso. Aponta-se (e bem) o dedo a quem anda demasiado devagar, ou circula na faixa do meio, ou se esquece do pisca, ou faz as rotundas por fora… Todos estes atos geram fúria tamanha que alguns condutores se espumam mais do que uma máquina de lavar loiça onde o detergente foi acidentalmente trocado por Fairy.

Mas quando alguém critica o excesso de velocidade, mais perigoso, mais mortal, mais prevalente, as reações oscilam entre o assobiar para o lado e a indignação. Conduzir rápido é prestigiante e quem disser o contrário é atropelado!

Porquê? Porque nos tornamos potenciais assassinos que se agigantam proporcionalmente em função da velocidade? Qual é o mórbido fascínio pela acidental antecipação da morte? É porque só acontece aos outros? Porque precisamos da adrenalina do perigo como droga? Porque temos medo de ser julgados como totós mansos se cumprirmos a lei? Pelo micro poder de controlo do carro e superação da velocidade dos outros?

Na grande maioria das vezes, nem sequer ganhamos tempo na viagem. Semáforos, trânsito, cruzamentos, na nossa  labuta diária o excesso de velocidade só serve para um consumo excessivo de combustível e um desgaste ridículo dos travões. Não raras vezes na minha viagem das Pedreiras a Leiria, sou ultrapassado por um Schumacher na reta de São Jorge, para acabar por chegar a Leiria ainda a cheirar-lhe a traseira, qual cão da moderação rodoviária. Mas ele, na sua ilusão de velocidade, pensa que foi muito mais rápido e deixou para trás os lesmas idiotas, não percebendo que esse adjetivo o mira de volta no espelho da realidade.