Os avanços e a vulgarização da Inteligência Artificial (IA), associados à evolução da robótica, terão um efeito nas nossas vidas que ainda são difíceis de prever.
A passagem dos telefones de disco para os telemóveis e do telex para o email, assim como a banalização da Internet, levaram a uma aceleração do mundo. A IA e a robótica, mais do que acelerar o mundo, criarão um novo paradigma e isso faz-nos levantar algumas questões.
Que impacto terão estes avanços na nossa relação com o trabalho? Qual será o novo modo de vida dos trabalhadores que forem substituídos por estas tecnologias? O que fazer com as pessoas que não se adaptarem? Que impacto isso terá no Estado Social? Quem é que melhor se irá adaptar aos novos desafios do trabalho, os empregadores privados ou o estado? Ainda sobrará espaço para os mais talentosos e para os que querem subir na vida?
Fomos assistindo nas últimas décadas à substituição de políticos por tecnocratas, que, perante os desafios da governação, encomendam estudos, definem o ponto de óptimo de equilíbrio entre diferentes variáveis e, com uma base técnica e científica, administram soluções que nos garantem serem as melhores para todos. Poderá a gestão dos tecnocratas ser substituída pela IA. E depois disso, ainda haverá espaço para a política? Se quando for uma máquina a definir os destinos de uma comunidade, ou de um país, ainda seremos donos e senhores do nosso destino? E, quando deixar de ser necessário correr o risco de acertar ou errar, para onde é que será remetida a liberdade? Teremos de redefinir o conceito de uma escolha livre? Ou, pelo contrário, nunca existiram nem existirão soluções óptimas para os desafios, mas apenas opções baseadas em valores? Depois de remeter as escolhas tecnocráticas para as máquinas, será pelos valores e pela ideologia que voltaremos a ter políticos a fazer política?
E como é que será a criação artística? Restará espaço para a literatura e para a criação musical? Pagaremos bilhete para assistir ao vivo música criada pela IA? Poderá o interesse pelo teatro, pela sua performance definitivamente humana, ultrapassar a atracção pelo cinema criado por máquinas?
E como será a relação entre a resistência e o encantamento deste novo mundo? Podemos esperar que, como sempre ocorreu no passado, grandes saltos tecnológicos desencadeem acções violentas contra os bens e equipamentos que corporizam a novidade? Ou alcançaremos um mundo perfeito, com uma semana de zero dias de trabalho e com rendimento garantido? Nesse caso qual será o novo lugar do ser humano no mundo? Se é nos países desenvolvidos que se diagnosticam maior número de depressões e, pelo contrário, é nos países ditos pobres que encontramos mais pessoas alegres e contentes, caminhamos em que sentido? Como será afectada a relação do homem material com o homem espiritual?


