O lixo nunca é gratuito

3 Outubro 2026

Há uma ilusão na nossa sociedade: a de que, depois de consumirmos um produto e deitarmos fora a embalagem, o problema desaparece. Não desaparece e para o fazer desaparecer é um processo caro. Uma embalagem tem uma cadeia bem oleada até chegar ao consumidor: produtor, comerciante, Estado. Qual a proporção e responsabilidade de cada um? Quando é o produtor que suporta esse custo, pode aparecer incorporado no preço do produto final, logo não damos pelo seu custo; quando recai sobre o consumidor, pode nem o sentir porque paga através de impostos ou de taxas autárquicas (é só observar as faturas) ,quando o consumidor paga directamente – aí sente – , quando ninguém se responsabiliza paga o ambiente através da poluição, da utilização de recursos naturais, da degradação dos espaços públicos e da perda de materiais que poderiam voltar à economia circular. Aqui chegados, parece que o problema está no modelo económico que temos adoptado nos últimas décadas; usa-se e descarta-se, alguém virá recolher, limpar e dar- lhe um fim. Nunca fomos confrontados com os verdadeiros custos do Lixo: produzir, recolher, separar, reutilizar ou destruir é muito caro. Há alternativas. Haver, há mas são demoradas e a muito longo prazo.
A ideia é transformar aquilo que seria lixo num recurso com valor.

É uma mudança importante de comportamento. Mas também cria uma obrigação para o sistema: se se exige ao cidadão que devolva a embalagem, o sistema tem de tornar essa devolução possível, simples e acessível. Uma máquina que não funciona, não pode ser tratada como se fosse responsabilidade do consumidor. Um ponto de recolha demasiado distante não pode ser ignorado. Uma regra incompreensível não pode ser transformada numa falha do cidadão.
Responsabilizar exige primeiro criar condições para cumprir. É isto que está a acontecer?
As regras são simples? Os pontos de recolha são acessíveis a todos? Há recolha suficiente, diferenciada e frequente, face aos resíduos/lixo deixados nos Ecopontos?
O lixo nunca é gratuito. A questão é apenas saber quem paga — e se paga de acordo com a responsabilidade que tem.

O produtor deve ter incentivos para produzir embalagens mais fáceis de reutilizar e de reciclar, o consumidor deve poder utilizar correctamente o sistema, o estado deve regular, fiscalizar e garantir transparência, quem abandona resíduos/lixo deve responder pelo dano. Assim se constrói uma verdadeira política de responsabilidade partilhada.