A Dança dos Pavões e o Naufrágio do Costume

1 Junho 2026

Conta-se que os animais organizaram um concurso para gerir a floresta. O mocho propôs debater as reservas de água e o castor quis planear as barragens. Mas o pavão, abrindo um leque de penas exuberantes, limitou-se a dar piruetas e a cacarejar promessas abstratas. Deslumbrada com o aparato visual, a bicheza elegeu-o. Três meses depois, o rio secou e as cabanas ruíram, mas o espécime continuava a desfilar, garantindo que a culpa do desastre era do relevo do terreno.

Olhar para o atual xadrez partidário em Portugal é precisamente isto: fomos transformados numa plateia anestesiada que aplaude a performance e ignora a competência. A governação assemelha-se a um teatro de sombras onde a eficácia já não se mede pela melhoria das condições de vida, mas pelo número de visualizações num clip de trinta segundos filtrado para as redes sociais. Substituímos o planeamento estratégico pelo ilusionismo.

O exemplo mais gritante deste embuste é o novo pacote laboral que o Executivo se prepara para carimbar. Vendem-nos a reforma com termos bonitos como “flexibilidade” e “modernização”. Mas basta ler as entrelinhas para perceber o retrocesso grosseiro. Sob o pretexto de ajustar o país ao mercado, o governo assalta a árvore dos direitos que demoraram décadas a cultivar. Facilitam-se os despedimentos, precarizam-se os horários e esmaga-se a segurança de quem trabalha. É um roubo descarado de conquistas históricas, perpetrado por quem acha que a economia só cresce se o elo mais fraco for tratado como mercadoria descartável. Enquanto o pavão faz a sua roda na televisão, o trabalhador comum vê o seu descanso confiscado.

Quem detém as rédeas do poder parece flutuar numa redoma de propaganda, lavando as mãos como se o descalabro social fosse uma inevitabilidade. Do outro lado da bancada, o cenário consegue ser igualmente deprimente. A contestação ruidosa é alimentada por oportunistas sem espinha dorsal, justiceiros de vão de escada cujos bastidores partidários estão pejados de amiguismo e figuras prontas a saltar para o primeiro tacho que o sistema disponibilize. Prometem defender o povo, mas o seu único combustível é o tacticismo eleitoralista. 

Perante tamanha palhaçada quotidiana, há momentos em que a única reação sanadora é mandar tudo para um sítio que eu cá sei, soltando um valente impropério para descomprimir a espinha. Passamos a vida a exigir seriedade, mas o ecossistema atual premeia a vigarice intelectual. Resta-nos o papel de zebras teimosas nesta savana de incompetência, continuando a lutar pelo que é nosso, mesmo quando os pavões nos tentam convencer de que este brutal retrocesso é um tremendo sucesso moderno.