Falava um crente com outro crente. Cada um tinha fé no seu Deus, ambos convencidos que de pleno coração. O Zé dizia que o seu Deus proibia que andasse de determinada maneira, que vestisse determinadas roupas, que comesse determinadas comidas, que dissesse determinadas palavras, que não desafiasse determinadas pessoas, que pensasse determinados pensamentos.
O Manel dizia que o seu Deus aconselhava que não andasse em determinados locais, que não comesse determinadas comidas, que não tocasse em determinadas coisas, que não desafiasse determinados animais, que não mergulhasse em determinadas águas, que não respirasse determinados ares.
O Zé disse que temia o seu Deus e o Manel que respeitava o seu.
– Eu não desobedeço ao meu Deus! Ele ditou as suas leis há muitos anos e eu cumpro-as porque não quero ir para o inferno. Tento convencer os outros a fazerem o mesmo que eu, para os salvar da condenação eterna – disse o Zé.
– Eu não faço nada daquilo que o meu Deus me mostrou que não devo fazer. As leis dele estão presentes no dia-a-dia e se não as cumpro, vou passar muito mal ou até mesmo morrer. Aviso os outros destas leis, para que não morram nem passem mal – replicou o Manel.
O Zé prosseguiu:
– Se vejo alguém que não cumpre as leis do meu Deus, chamo à atenção e castigo-o. Ao que o Manel responde:
– Se vejo alguém que não cumpre as leis do meu Deus, não preciso de dizer nada. O meu deus trata de lhe mostrar que errou. O meu Deus não precisa de mim para se manifestar. O teu é um bocado fraquinho, não?
– Ele manifesta-se através de mim. Se, por exemplo, alguém falta ao culto, anda com um abonado decote, pensa sequer em pecar, é punido pela nossa forte comunidade. É o que está escrito no nosso livro das leis: as leis de Deus – diz o Zé. O Manel, por sua vez diz:
– Sim? Então é porque não tem capacidade de fazer as coisas ele mesmo. O meu manifesta-se por si próprio. Se, por exemplo, alguém decide que deve tentar voar de um décimo andar e achar que consegue manter-se no ar, acaba por cair. Eu não tenho nada que o castigar. Não sou eu, um peão, quem tem de assumir o papel do meu Deus. É o que está escrito no nosso livro das leis: as leis da física.
A grande diferença entre a crença e a realidade é simples: a crença pode ser falsa, mas a realidade não. A crença pode suavizar, mas a realidade não. A crença pode camuflar-se de realidade, mas nem sempre o é. Quando muitas pessoas creem na mesma coisa, tornam essa coisa numa pseudorrealidade. Cria-se uma ilusão coletiva de que o que parece ser é-o de facto. E vive-se nessa ilusão, por vezes, durante décadas. Mas a realidade tem uma característica: é imutável. Não há como evitá-la.


