Aceita, que dói menos

13 Agosto 2025

Em nenhum momento da história se pode dizer que tenha existido apenas uma única mentalidade e uma forma de interpretar a realidade, mas é possível definir as tendências de cada geração. Como era a mentalidade dos portugueses há 100 anos?

O mundo, a época e o isolamento faziam que a vida no mundo rural fosse muito conservadora e com uma grande influência da religião católica. A sociedade de então era muito hierárquica e patriarcal, em que o papel da mulher não a permitia afastar-se das tarefas domésticas. A igualdade de direitos, o acesso ao ensino público e ao divórcio não passavam de formalidades legais sem aplicação prática.

Na atualidade, a democracia, o voto universal, o acesso efetivo ao ensino, e uma sociedade muito mais secular, ficam a anos-luz dessa vida de 1925. O que pensariam os nossos antepassados do projeto europeu, da livre circulação de pessoas e bens, da moeda única e do fim do império? O meu avô Zé organizava excursões de autocarro pelo país. Uma ou duas vezes por ano iam ao norte, às festas da Senhora da Agonia, a Lamego, ao Bom Jesus de Braga, ao Caramulo e ao Luso, a Viseu, e uma ou outra vez à Arrábida. Pelo que sei, nunca foram ao Alentejo nem ao Algarve. O que pensaria ele das dezenas de países que já visitei ou da facilidade que hoje temos em reservar a partir de casa um bilhete numa companhia de low-cost? A remota possibilidade de que daqui a 24 horas podemos estar do outro lado do mundo, não passaria de ficção científica. E isto sem falar da Internet. Mas o ponto que pretendo sublinhar vai para além das possibilidades tecnológicas da nossa época. O que pensaria o meu avô Zé, ou o pai dele, das minhas convicções e daquilo que considero como sendo normal e aceitável na nossa vida em sociedade? Como é que eu lhe poderia explicar que muito daquilo em que assentou a sua vida, já não existe ou mudou radicalmente? E a partir desta ideia lanço o desafio a quem me lê. Imaginemos o futuro. Como será a rotina diária dos nossos descendentes? E as suas convicções? O que pensarão eles do tempo atual? Como julgarão o mundo aberto e razoavelmente tolerante dos nossos tempos? Como é que evoluirão os relacionamentos familiares, sociais e de trabalho nesse futuro que chegará? Como será o mundo do trabalho? E a vida em comunidade? Ainda existirão coletividades? E festas da paróquia? Observando os ensinamentos da história, esse mundo que já não conheceremos será muito diferente do nosso. Observando a evolução nas convenções sociais, é fácil de imaginar que dificilmente encaixaríamos na mentalidade vigente daqui a 100 anos. Por tudo isto o melhor a fazer é aceitar sem muita indignação as incómodas mudanças a que vamos assistindo. Aceita, que dói menos.