Beatriz Simões

Até os “porcos” têm elites

21 Jun 2024

O estudo do poder faz parte da Ciência Política. As descrições de “Política”, como definição, traduzem-se na palavra “Poder”, ou pelo menos utilizando-a em parte. O livro A Quinta dos Animais, de George Orwell, apresenta-se como uma adaptação da leitura do poder e da estrutura do poder numa sociedade que, não sendo humana, retrata o próprio comportamento humano. Representa, ainda, e logo em primeiro lugar, a própria natureza mutável das sociedades, associada a uma mudança perpétua. Não apenas dos próprios agentes da mudança, como também nos vetores de mudança que representam.

Encontra-se, n’A Quinta dos Animais, a definição da elite e os seus vários tipos. A história passa-se na Quinta do Solar, onde os animais, liderados pelos porcos, revoltam-se contra o agricultor humano, Sr. Jones, devido ao seu tratamento cruel e explorador. Inspirados pela utopia idealista do velho Major, um porco sábio, os animais organizam-se sob a liderança de dois jovens porcos, Bola-de-Neve e Napoleão. Após a bem-sucedida revolta, a quinta é renomeada como “Quinta dos Animais” e os animais estabelecem um conjunto de princípios chamado de “Sete Mandamentos”, sendo o mais importante “Todos os animais são iguais”.

No entanto, rapidamente surgem conflitos internos. Napoleão usa cães ferozes para expulsar Bola-de-Neve e assume o controlo total da Quinta. Começa a centralizar o poder e a tomar decisões sem consulta, corrompendo os ideais da revolução. Com o passar do tempo, os porcos sob o comando de Napoleão tornam-se cada vez mais semelhantes aos humanos que originalmente expulsaram. Adotam costumes humanos, vivem em casas e envolvem-se em negócios com agricultores humanos. Os “Sete Mandamentos” são gradualmente alterados para justificar as ações dos porcos, até restar apenas um: “Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que os outros”.

O romance termina com uma cena em que os outros animais observam uma festa entre os porcos e os humanos, mas já não conseguem distinguir uns dos outros. A revolução, que começou com a esperança de uma sociedade justa e igualitária, resulta numa tirania ainda pior do que a anterior.

Longe de mim achar-me na capacidade de compreender a natureza humana, mas Orwell descreve uma inquietação quiçá geral. Quantos de nós olhamos para os nossos iguais e, na verdade, parece-nos que uns são mais iguais que os outros? A bem da nossa paz de espírito, que sejamos poucos. Mas se até os “porcos” têm elites, haverá como fugir desta quinta?