Cartão Vermelho

16 Dezembro 2025

Não sou adepto de futebol. À medida que me fui apercebendo de que o futebol ao mais alto nível é mais um jogo de empresas do que de bola, com interesses financeiros bem acima do interesse desportivo, com jogos de bastidores mais ensaiados e treinados que os jogos no campo, com rasteiras e caneladas agressivas e desonestas em salas de reunião, o meu interesse foi-se desvanecendo até desaparecer completamente.

Mas, como sempre, nem tudo é lixo. As regras do jogo de futebol que, embora manobráveis, ainda são maioritariamente cumpridas, podiam ser aplicadas a outras realidades fora do campo. Gosto, por exemplo, do conceito dos cartões.

É previsível que durante os 90 minutos de uma partida de futebol se vá cometer faltas. E é previsível também que algumas dessas faltas sejam leves e outras sejam mais graves. Destas, dependendo da agressividade, zona onde é efetuada, da reincidência, etc., poderão dar origem a que seja levantado o cartão amarelo e/ou o vermelho, ditando este último a expulsão do faltoso. 

Não seria interessante usar o mesmo sistema nos debates políticos? Em vez de visar agressões ou incumprimentos de formalidades e regras, visava-se apenas uma coisa: as mentiras comprováveis. 

Quando um candidato, numa qualquer eleição, dissesse uma mentira que facilmente se comprove que é mentira, ser-lhe-ia levantado um cartão. Se fosse uma coisa mais inofensiva e que não representasse grandes incongruências, via o cartão amarelo e era instado a não repetir essa atitude. 

Se o voltasse a fazer, ou se a mentira fosse grave ao ponto de criar um impacto sério, veria o cartão vermelho e era expulso do jogo.

Eu acho que seria brutal. Vendo o que se passa nestes pseudodebates, com candidatos a mentir descaradamente, comprovadamente e sem consequências, fico frustrado*. O problema da mentira a este nível é que, se não for imediatamente desmascarada, ela vai ficar na nossa frágil memória e, a determinada altura, pode mesmo ficar retida como uma verdade. 

Haja honestidade. Mas, se não houver, haja cartões! Se calhar, até se pode propor que se use mais que um amarelo antes do vermelho… sei lá, aí uns 10 ou vinte amarelos e só depois o vermelho… e, ainda assim, corre-se o risco de não haver debates por falta de concorrentes.

* Frustrado – palavra substituta de outra, iniciada também com a letra “F”.