E se Portugal mandasse no Estreito de Ormuz?

18 Maio 2026

Se há um traço persistente na história de Portugal, é a capacidade de estar entre mundos. Nem sempre o país teve força para impor soluções, mas repetidamente mostrou talento para criar ligações improváveis. Pensar “e se Portugal mandasse no Estreito de Ormuz” não é tanto um exercício de nostalgia imperial quanto uma provocação útil: e se, em vez de dominar, Portugal coordenasse?

O Estreito de Ormuz é um dos pontos mais sensíveis do planeta. Por ali passa uma fatia significativa do petróleo mundial, e qualquer instabilidade repercute-se, imediatamente, na economia global. Ao longo da história, várias potências tentaram controlar este gargalo — entre elas Portugal, desde a conquista de Ormuz por Afonso de Albuquerque no século XVI. Mas a lógica de então — a do domínio e da fortificação — já não serve o mundo interdependente de hoje.

Se Portugal “mandasse” em Ormuz no século XXI, a questão decisiva seria: mandar como? Um comando tradicional, baseado em força militar, seria não só inviável, como indesejável. O verdadeiro valor português poderia residir noutro tipo de poder: o de mediador confiável. Um país sem ambições hegemónicas na região, com relações diplomáticas abertas tanto com o Ocidente como com o Médio Oriente, poderia funcionar como facilitador de diálogo — algo de que aquela zona carece cronicamente.

Portugal tem um capital histórico discreto mas relevante: a sua tradição diplomática, o multilateralismo e a experiência em contextos internacionais, como na Organização das Nações Unidas ou na União Europeia. Além disso, a língua e a cultura portuguesas criaram redes inesperadas pelo mundo fora, mostrando que a influência nem sempre depende do poder das armas.

Num cenário plausível, Portugal poderia propor um modelo de gestão partilhada do estreito, envolvendo países ribeirinhos e grandes utilizadores globais de energia. Em vez de “controlar” Ormuz, Lisboa poderia sediar um fórum permanente de segurança marítima e energética — um espaço onde atores rivais fossem obrigados a sentar-se à mesma mesa. Não seria uma tarefa fácil, mas a credibilidade de um mediador depende precisamente da sua distância relativa aos conflitos.

Há, contudo, um risco neste exercício: romantizar a capacidade portuguesa; Portugal não dispõe de meios militares, económicos ou políticos para garantir sozinho a estabilidade de uma região tão volátil. A sua força, se existir, está na subtileza — em construir pontes onde outros erguem muros. E pontes não substituem estruturas de poder, mas podem torná-las mais estáveis.

No fundo, a pergunta “e se Portugal mandasse em Ormuz?” talvez deva ser reformulada: e se Portugal ajudasse a que ninguém precisasse de mandar? Num mundo cada vez mais fragmentado, o verdadeiro poder pode não estar em controlar os pontos estratégicos, mas em garantir que continuam abertos. E nisso, paradoxalmente, um pequeno país com vocação atlântica pode ter algo a ensinar.