Não conseguimos descansar

22 Março 2026

Não conseguimos descansar. A frase deixou de ser um desabafo íntimo para se tornar retrato coletivo. Enquanto a Tempestade Kristin varria telhados e inundava estradas, ainda mal refeitos, fomos surpreendidos com notícias de nova escalada entre Irão, Israel e Estados Unidos. O vento batia nas janelas; as declarações inflamadas batiam na consciência. Em ambos os casos, a sensação era idêntica: vulnerabilidade.

Há algo de simbólico nesta coincidência. A tempestade meteorológica recorda-nos que não controlamos a Natureza. Podemos prever trajetórias, reforçar infraestruturas, emitir alertas. Ainda assim, quando as rajadas chegam, percebemos a fragilidade das nossas construções. Já a tempestade geopolítica nasce de decisões humanas. É fruto de estratégias, ressentimentos históricos e alianças rígidas. Se a primeira é inevitável, a segunda resulta de escolhas.

Entre Teerão e Telavive acumulam-se décadas de hostilidade. Washington surge como aliado estratégico e ator decisivo. Cada movimento é observado como num tabuleiro de xadrez, mas as peças são cidades, infraestruturas e vidas humanas. Um erro de cálculo pode desencadear uma reação em cadeia. Mas atenção; o vento não escolhe vítimas; a guerra escolhe alvos.

Não podemos fingir distância. A instabilidade no Médio Oriente repercute-se nos mercados energéticos, na inflação e na confiança global. O mundo interligado encurtou distâncias, inclusive as do medo. A tempestade que começa longe, chega-nos em forma de aumento de preços e de  incerteza política. Descobrimos que a segurança é mais frágil do que supúnhamos.

O mais inquietante é a normalização do sobressalto. Passamos da crise climática à crise militar quase sem pausa para refletir. Como se viver em permanente alerta fosse inevitável. Não é.

Não conseguimos descansar, porque sabemos que depois da tempestade vem a bonança, mas a Paz não regressa sozinha. Ela depende de decisões corajosas. Entre rajadas e manchetes, resta-nos recusar a indiferença e lembrar que a estabilidade não é um dado adquirido: é uma construção frágil que precisa de ser defendida todos os dias.

A lição que retiro destes dias é simples: a natureza exige responsabilidade ambiental; a política firmeza diplomática, se possível sem recurso às armas. Para podermos descansar em paz e sossego.