Marcos Ramos

Não há espiga!

26 Mai 2022

No dia que este artigo é publicado é quinta-feira da Espiga, dia em que se celebra a consagração da Primavera. Este dia teve origem nos rituais pagãos, sobretudo nas culturas celta e romana. Eram celebradas as primeiras colheitas e pedia-se abundância (qualidade e quantidade).

Em Portugal, para os católicos é também Quinta-Feira da Ascensão, marcando a subida de Jesus Cristo aos céus 40 dias após a ressurreição e representando portanto, a salvação!

A espiga, símbolo deste dia, era colocada atrás da porta de casa e é tido como símbolo de sorte e prosperidade. Nos dias de tempestade atirar-se-iam pedaços da espiga para proteção contra a trovoada.

A sua constituição é, em si, também plena de significado: as espigas (de cereal) devem ser em número ímpar e representam o pão que é ainda hoje base de alimentação e sustento das famílias. A papoila, com o seu vermelho carregado, representa o amor e a vida. No malmequer temos símbolo de riqueza (o branco representa a prata e o amarelo o ouro). A oliveira representa a paz e a luz (pelo azeite como combustível para as lâmpadas). O alecrim pela sua capacidade de resiliência, simboliza a força e a resistência. E a videira, de onde se faz o vinho representa a alegria.

De acordo com a tradição, não se devia trabalhar no Dia da Espiga. Em substituição eram feitos passeios pelos campos para recolher as diversas plantas e construir as espigas, faziam-se também piqueniques e era o “dia mais santo do ano”.

Temos também a expressão popular “Não há espiga!”, que significa “Está tudo bem!” ou “Não há problema!” e que representa de forma exemplar o espírito tão português de resignação com o atual estado das coisas: o “Vai-se andando!”.

“Não há espiga!” porque realmente não há espiga.

Não há pão: os cereais galopam no preço, o pão e outros bens essenciais aumentam também nas prateleiras dos supermercados. Não há malmequer: porque efetivamente não há riqueza e há pobreza (1,6 milhões de portugueses – 15% da população – vivem abaixo do limiar da pobreza). Não há oliveira porque estamos em guerra na Europa e com a subida dos preços dos combustíveis não tarda iremos ficar também sem luz. Não há alecrim porque os nosso governantes enchem a boca com a palavra resiliência, mas o povo responde com resignação. Onde está a força? E não há videira porque não há alegria, somos um povo mais triste (o Relatório da Felicidade Mundial coloca Portugal em 56º), no entanto ainda temos vinho.

Mas não nos tirem o vinho!!

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