O poio no palanque

19 Abril 2026

Um poio é um poio! A natureza é mesmo assim, o que é é o que é. 

Um ser vivo heterotrófico, por exemplo o ser humano, tem de consumir outros seres vivos para obter a sua matéria orgânica e a sua energia. Faz a digestão e elimina o que não absorveu. Dessa eliminação resulta o poio. Pode então concluir-se que o poio é o dejeto, o que foi eliminado, após ação digestiva, e que, devido à presença de bactérias, vírus, parasitas e resíduos tóxicos, não deve ser reintroduzido no organismo. É altamente prejudicial se acontecer. O que se faz com o referido poio após a sua dejeção deve ser apenas puxar o autoclismo. Depois, será direcionado através dos canais destinados a esse fim para uma ETAR, onde será desmantelado de forma a devolver à natureza os elementos em configuração não tóxica. E é isto.

Não faz sentido chorar pela perda de um poio. Ele não tem na sua natureza um valor sentimental. Não será sã uma relação de qualquer tipo com um poio, nem esperar dele o que ele não pode oferecer: uma conversa fraternal, um ombro amigo, um companheiro de viagem, um conselho, uma ideia… Imaginemos: se cada poio usasse chantagem emocional, exigindo respeito, consideração e gritando a viva voz: “Vergonha! É isto que se faz? Mandar-me assim pela sanita abaixo sem o mínimo de consideração?”, e nós considerássemos o que diz, ia ser muito complicado de gerir o nosso dia a dia. Estaríamos cercados de poios que serviriam para mais nada que não fosse perturbar-nos com a sua presença, cheiro e toxicidade…

Imagine-se, agora, a sociedade como um organismo vivo: ela própria produz os seus poios, fruto do seu funcionamento. Para se manter viva e saudável, precisa de tratar desses poios, para que não contaminem. Colocá-los no sítio certo para que não a possam prejudicar com a sua toxicidade.

No sítio certo, os poios até podem ser úteis, uma vez que poderão ser fonte de nutrientes, depois de decompostos. Mas nunca se ponha um poio num palanque. Dar destaque a um poio é dar-lhe a oportunidade de disseminar doenças, de intoxicar tudo à sua volta, de colocar à vista de todos o que de pior se produz na sociedade, espalhar o mau cheiro e o mau aspeto. É dar-lhe oportunidade de ser sempre verdadeiro poio. Pôr um poio num palanque é retirar a oportunidade de lá ter outra coisa, mais saudável, mais útil e construtiva. Pôr um poio num palanque é, usando palavras bonitas, cagar em cima do que de tão belo e complexo tem vindo a ser construído ao longo dos tempos. Ver um poio num palanque ou no poste é desmoralizador, é doentio e é destrutivo. 

Não nos deixemos enganar: Portugal tem neste momento um conjunto de 58 poios no palanque, de onde se destaca o Poio Supremo. Não se trata de disputa entre poios de esquerda e poios de direita: trata-se de 58 poios de extrema direita que, como poios que são, não acrescentam nada de positivo.

Não vamos acreditar que aquelas coisas podem mudar e contribuir, porque isso não vai acontecer. Podem mudar de imagem, de discurso ou de roupagem que, não tenhamos ilusões, serão sempre merda… perdão, caca… perdão outra vez: poios.