Racismo não, mas culturalismo…

4 Novembro 2026

A Declaração Universal dos Direitos Humanos resultou de um longo processo histórico e que felizmente nos permitiu crescer e viver num mundo em que se convencionou que o racismo traduz uma visão errada e injusta do mundo. Todos somos iguais em dignidade e direitos.

Será que podemos estender esse princípio de igualdade a diferentes culturas? Quando os ocidentais, entre os quais os portugueses, mapearam os caminhos que ligam o mundo, cruzaram-se com povos que praticavam sacrifícios humanos e canibalismo, e ainda com outros que não usavam a roda nem o arado. Perante isso, descreveram-nos como bárbaros e primitivos.

Dada a limitação de caracteres, este é um tema difícil de tratar com o devido detalhe. Salto por isso para o séc. XX em que dois importantes pensadores elaboraram diferentes visões sobre a comparação de culturas. Os seus nomes têm parecenças, pelo que nos exigem uma atenção especial. Lévi-Strauss defendeu que não podemos considerar uma cultura inferior apenas por ser diferente da nossa. Por seu lado, Leo Strauss contrapôs dizendo que se todas as culturas fossem iguais, o canibalismo seria apenas uma questão gastronómica.

E nisto chegamos à actualidade. A falta de prosperidade da nossa economia impediu que tenhamos sido um destino massivo de emigração como ocorreu em França, Reino Unido, Suécia e Alemanha. Em alguns municípios desses países, regulamentos aprovados por maioria, impedem que as piscinas públicas sejam frequentadas por homens e mulheres nos mesmos dias. Ao mesmo tempo, as autoridades médicas alertam que, dentro destas comunidades, a mutilação genital feminina é praticada em jovens nascidas e criadas na Europa. O casamento de meninas com familiares bem mais velhos ocorre regularmente à margem da lei, e mesmo as mulheres adultas são privadas de se vestir e de viver como bem entendam. Há também registo de alguns maridos lhes tentarem usurpar o direito de voto. Perante casos destes, que não se enquadram na cultura ocidental e que cá chegaram por via da imigração, é natural que regressemos ao debate sobre se há, ou não, culturas superiores a outras.

John Cleese, um dos membros dos Monty Python, que desde os anos 70 fez rir milhões de fãs com o seu refinado humor, tem vindo a público afirmar que, por concordar que somos todos iguais em dignidade e direitos, não é racista. No entanto, por preferir culturas que criminalizam a violência sobre as mulheres e a pedofilia, que não admitem o apedrejamento público como punição judicial, nem a decapitação dos opositores, descreve-se como sendo um culturalista.