Armindo Vieira

Achegas para a história local (5) – O Caminho de Ferro

12 Out 2022

Já aqui falámos, embora resumidamente, dum projeto elaborado em 1899 para a construção de uma linha de caminho de ferro, com passagem por Porto de Mós.

Agora voltamos ao assunto, por via duma local publicada na edição do semanário “O Portomozense” n.º 251, datada de 19 de janeiro de 1904, assinada pelo Morenito e sob o título Novo caminho de ferro por Porto de Moz.

Adiantando ser «ponto assente» que iria construir-se um caminho de ferro com «a trajectória: De Thomar por Villa Nova d’Ourém, Reguengo do Fetal, Porto de Moz com direcção á Praia da Nazareth», o articulista refere que a notícia se soube em primeira mão e que «está fora de dúvida» que a dita construção «é uma realidade d’entro de pouco tempo».

Para justificar a importância deste melhoramento «para os povos e mesmo para a Companhia Real», apontavam-se no artigo «as principais conveniencias», sendo a primeira a garantia de se poder «mais commodamente ir com menos dinheiro a Lisboa, ao Porto ou a qualquer outro ponto do reino».

Em segundo lugar apontava-se que o comércio iria lucrar muito mais porque «todos os géneros lhes podem ser fornecidos quasi da sua procedência pelos mesmos preços do mercado das grandes cidades».

Por sua vez e em terceiro lugar indicavam-se as «nossas próprias producções, que ainda não são muito poucas, teriam mais sahimento, e por isso maior seria o seu preço», explicando que havia muitas madeiras, bastantes vinhos «e as importantes minas de cantaria nas Pedreiras», sendo esta «última producção», uma riqueza de «se levar a effeito a empreza pensada».

Por fim dizia o Morenito que a «nossa terra é muito abundante em carvões de pedra (hulha) ainda que mal explorados», pelo que tudo isto viria a dar uma grande fonte de receita, o que levantaria «bem alto os créditos da nossa terra».

Mas, as coisas não seriam tão fáceis assim, pois noutro artigo no mesmo semanário e sem assinatura, o que se presume que seja da responsabilidade do diretor, são feitas algumas críticas a Leiria, por não concordar com o traçado inicial, em que se referia que não era razoável «que Leiria ande trabalhando para nos prejudicar» nesta campanha em que «estamos empenhados no progresso da nossa região», acrescentando que era preferível «ver antes os nossos amigos de Leiria ao nosso lado na consecução do bem commum, pedindo a aprovação do traçado, pois a todos beneficia».

A verdade é que todos estes esforços ficaram pelo caminho e Porto de Mós, tal como a Batalha, ficaram durante muitos anos sem ver passar o comboio.

Só em finais da década de 30 do século passado o comboio chegou a Porto de Mós, pela mão da Empresa Mineira do Lena com vista a escoar o carvão, mas com outros traçados, pois ligava Porto de Mós à Martingança.